Mais que exuberância natural, a rota preserva capítulos da história sertaneja, marcada pelos “comboieiros” que subiam e desciam a serra transportando especiarias e mercadorias regionais. O projeto também dialoga com uma frente considerada promissora pelos ministérios do Meio Ambiente e do Turismo: as trilhas de longo percurso como vetores de conservação ambiental, divulgação científica, lazer e geração de emprego e renda.
O Brasil é hoje o segundo maior emissor não europeu de turistas à rota de Santiago de Compostela, mas possui menos trilhas sinalizadas do que Luxemburgo — país com território inferior ao do estado do Rio de Janeiro. O dado revela uma demanda reprimida e um espaço estratégico para expansão do ecoturismo estruturado.
As travessias são assim classificadas quando exigem pernoites ao longo do trajeto. Nos Caminhos da Ibiapaba, são 13 trechos com diferentes níveis de dificuldade, que podem ser percorridos integral ou parcialmente. Há, inclusive, a possibilidade de alternar caminhada e pedal em alguns pontos. A rota completa dura idealmente sete dias.
O percurso conecta três importantes áreas de preservação: o Parque Nacional de Sete Cidades, o Parque Nacional de Ubajara e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba.
Patrimônio natural

Gruta de Ubajara, patrimônio espeleológico cearense
A expedição inaugural, realizada na primeira semana de fevereiro, começou no alto da serra. Entre trilhas na mata e antigas estradas rurais, o caminho leva ao Parque de Ubajara, reconhecido por suas cachoeiras e pela Gruta Ubajara — patrimônio espeleológico cearense com 1.200 metros de extensão em amplos salões de rochas calcárias. Descoberta pelos portugueses em 1738, a gruta alcança 37 metros de profundidade e, no século passado, foi palco de cerimônias religiosas.
Ao longo da serra, mirantes que chegam a 900 metros de altura revelam a chamada “mata de cocais”, composta por macaúbas, babaçus, buritis, açaís e carnaúbas — espécies de interesse econômico que explicam a presença histórica de sítios de agricultura familiar estabelecidos há mais de 100 anos. Com o declínio da maioria desses cultivos, a floresta encontra-se atualmente em processo natural de regeneração.
Na etapa seguinte, já ao nível do mar, surgem engenhos de cachaça, produção artesanal de rapadura e campos de rosas. A paisagem se transforma: a aridez da Caatinga impõe cactos, pedras e terra avermelhada.
Na divisa com o Piauí, a comunidade Saco dos Polidórios — opção de pernoite — abriga cerca de 500 descendentes de Polidório de Brito, fundador do local. A comunidade mantém até um observatório astronômico e foi, por décadas, entreposto estratégico para comboieiros que cruzavam Ceará, Piauí e Maranhão em viagens que duravam até três meses. Transportavam couro de animais, cera e outros produtos ao alto da serra; no retorno, levavam café, rapadura, cachaça e frutas.
O desfecho da rota ocorre no Parque Nacional Sete Cidades, entre Piracuruca e Brasileira (PI). Ali, a vegetação novamente se altera, com árvores mais altas e o retorno do verde intenso, marcado por espécies como faveira de bolota, cajuí e sambaíba, já na transição para o Cerrado.

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