CONSUMO SOB PRESSÃO

Bets retiram R$ 143 bilhões do varejo e ampliam disputa pela renda das famílias

Por Redação - Em 19/08/2026 às 12:01 AM

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A CNC estima que cada R$ 1 bilhão destinado às bets está associado a uma redução de 0,7% no faturamento do varejo

A expansão das apostas on-line começa a produzir um efeito que vai além do mercado de jogos e alcança diretamente o consumo brasileiro. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, as bets retiraram cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O valor é comparável ao faturamento do varejo em duas temporadas de Natal.

O avanço das plataformas criou um novo concorrente pela renda disponível das famílias. Recursos que antes poderiam ser direcionados à compra de roupas, eletroeletrônicos, móveis ou outros bens passaram a disputar espaço no orçamento doméstico com apostas feitas diretamente pelo celular.

Segundo a CNC, a relação já aparece nos indicadores do setor. A entidade estima que cada R$ 1 bilhão destinado às bets está associado a uma redução de 0,7% no faturamento do varejo. O gasto mensal dos brasileiros nas plataformas, que estava em cerca de R$ 4 bilhões em janeiro de 2023, chegou a R$ 29 bilhões em dezembro de 2025.

A dimensão do fenômeno também aparece em dados sobre o fluxo financeiro das apostas. Levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, estimou em R$ 62,5 bilhões as perdas líquidas das famílias brasileiras com bets em 2025.

No mesmo período, as plataformas movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transferências via Pix. Dados preliminares do Ministério da Fazenda apontam, por sua vez, R$ 220,6 bilhões em depósitos nas casas de apostas legalizadas em 2025, mostrando que diferentes metodologias produzem números distintos para a movimentação do setor.

O impacto ganha relevância em um momento no qual o varejo já enfrenta juros elevados, crédito mais caro e famílias com parcela significativa da renda comprometida. Nesse ambiente, as apostas passam a representar mais um vetor de pressão sobre a capacidade de consumo.

Endividamento entra na conta

A CNC estima ainda que o crescimento das apostas pode ter levado aproximadamente 270 mil famílias à chamada inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias. A entidade aponta maior vulnerabilidade entre famílias de renda de até cinco salários mínimos, embora os efeitos também sejam observados nas faixas de renda mais altas.

A consequência para o comércio aparece quando o consumidor começa a adiar compras para acomodar dívidas ou perdas relacionadas às apostas. Trocas de celular, aquisição de roupas e outros gastos acabam sendo postergados, reduzindo a circulação de recursos pelo varejo.

A leitura da CNC, porém, é contestada por representantes da indústria de apostas. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) questionou a metodologia utilizada pela confederação e pediu acesso às bases de dados do estudo. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também argumentou que o endividamento das famílias possui múltiplas causas e que os números apresentados não refletiriam os dados oficiais do setor.

Apesar da disputa metodológica, a escala alcançada pelas apostas adiciona uma variável relevante à economia do consumo. Em vez de competir apenas entre si pela carteira do brasileiro, varejistas agora dividem uma parcela crescente da renda disponível com uma indústria digital que funciona 24 horas por dia e está a poucos cliques de distância.

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