Eleições 2026
Convenções fecham alianças; agora começa o teste para transformar estrutura em voto no Ceará
Por Fernando Benevides - Em 08/08/2026 às 12:17 PM
Elmano reúne ampla coalizão e, segundo Cid Gomes, mais de 150 prefeitos; Ciro consolidou bloco com Roberto Cláudio, Capitão Wagner e PL após disputa interna na União Progressista. Quaest mostrou vantagem de Ciro antes do fechamento das chapas, e Datafolha divulgará nova fotografia na quinta-feira.

Elmano De Freitas e Ciro Gomes
As convenções definiram os nomes. Não definiram consenso.
Uma federação contestada na Justiça pelos diretórios estaduais dos próprios partidos que a formam. Uma ex-prefeita de Fortaleza que deixou o PT depois de décadas e terminou candidata ao Senado na chapa governista. Candidaturas que mudaram de destino nos últimos dias do calendário partidário.
As peças se moveram até o fim.
Agora, com as chapas montadas, a eleição cearense entra em outra fase: descobrir quanto as alianças construídas pela política conseguem valer nas urnas.
Elmano de Freitas chega à disputa pela reeleição à frente de uma coalizão ampla, reunindo algumas das principais forças partidárias e municipais do Estado. Ciro Gomes consolidou o principal bloco oposicionista ao lado de personagens com bases eleitorais próprias, como Roberto Cláudio e Capitão Wagner.
Há outras candidaturas ao Governo e elas fazem parte da eleição. Mas são esses dois blocos que concentram, neste momento, a maior estrutura partidária e capacidade de articulação territorial.
A pergunta mudou.
Já não é apenas quem conseguiu qual posição na chapa.
É quanto cada composição conseguirá valer diante do eleitor.
Duas chapas, diferentes forças à mesa
No campo governista, Elmano terá Gabriella Aguiar, do PSD, como candidata a vice-governadora.
A definição deslocou Jade Romero, atual vice, para a disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa e colocou o PSD diretamente na chapa majoritária.
No Senado, a composição ampliou a distribuição de espaços.
Cid Gomes, do PSB, disputa a reeleição, tendo Júnior Mano na primeira suplência e o empresário Júlio Ventura na segunda.
A outra candidatura ficou com Luizianne Lins, que deixou o PT depois de uma longa trajetória no partido, ingressou na Rede e terminou incorporada à chapa governista. Chagas Vieira, do PDT, ocupa a primeira suplência, enquanto Rodrigo Oliveira, do MDB e filho de Eunício Oliveira, ficou com a segunda.
Governo, vice, Senado e suplências acabaram, assim, distribuídos entre diferentes forças da coalizão.
No principal campo oposicionista, Ciro encabeça a chapa pelo PSDB e terá Roberto Cláudio, do União Brasil, como vice. Capitão Wagner, também do União Brasil, disputa uma das vagas ao Senado, enquanto Alcides Fernandes, do PL, concorre à outra.
A composição ampliou a estrutura partidária disponível para Ciro e reuniu numa mesma chapa lideranças com eleitorados próprios.
Roberto Cláudio é especialmente simbólico nessa fotografia.
Em 2022, seu nome esteve no centro da ruptura da aliança entre PT e PDT que havia governado o Ceará por 16 anos. Quatro anos depois, retorna à chapa majoritária ao lado de Ciro, agora como candidato a vice.
A eleição de 2026 reorganizou antigas alianças — mas não eliminou todas as divergências que existiam antes delas.
A federação que precisou passar pelo TRE
Nenhum episódio mostra essa complexidade de forma tão clara quanto a Federação União Progressista.
O conflito tem personagens definidos. A federação é presidida por Capitão Wagner, hoje candidato ao Senado na chapa de Ciro. Os diretórios estaduais de União Brasil e Progressistas haviam deliberado pelo apoio à reeleição de Elmano.
Quando a federação decidiu integrar a coligação de oposição, os diretórios estaduais das duas legendas recorreram à Justiça Eleitoral para tentar anular a convenção.
Na terça-feira (4), o TRE-CE decidiu, por 4 votos a 2, manter válida a deliberação da federação e preservar, naquele momento, sua participação no bloco oposicionista.
A disputa tinha consequências que iam além da presença na chapa, alcançando ativos eleitorais vinculados à atuação da federação durante a campanha.
Mas o significado político é ainda mais claro: estar formalmente no mesmo campo eleitoral não significa que todas as forças chegaram até ali pela mesma trajetória ou com a mesma preferência.
A decisão resolveu a composição para esta etapa da disputa. Não apagou as diferenças políticas que a produziram.
Fora dos dois principais blocos, o tabuleiro também mudou
A reorganização não ficou restrita às duas maiores coalizões.
Na mesma reta final das convenções, Eduardo Girão deixou a disputa pelo Governo do Ceará para integrar, como candidato a vice-presidente, a chapa nacional de Romeu Zema.
Com a mudança, o Novo lançou Pedro Brito ao Governo do Estado.
O movimento reforça um cuidado necessário na leitura do cenário: a eleição cearense não se resume a Elmano e Ciro.
As convenções apresentaram sete candidaturas ao Governo, ampliando o conjunto de alternativas que chegará à campanha.
Os dois principais blocos concentram grande parte da estrutura partidária e municipal, mas não representam sozinhos todo o tabuleiro eleitoral.
Mais de 150 prefeitos: o mapa territorial de Elmano
Se os partidos mostram a arquitetura formal das alianças, os prefeitos ajudam a medir sua presença no território.
Segundo Cid Gomes, Elmano reúne atualmente o apoio de mais de 150 prefeitos cearenses.
O número deve ser entendido como uma declaração política do senador — e não como levantamento nominal realizado pelo Portal IN —, mas dimensiona um dos principais ativos apresentados pelo campo governista.
O Ceará possui 184 municípios. Uma rede dessa escala significa presença política espalhada por praticamente todas as regiões e uma estrutura formada também por vereadores, lideranças locais e grupos com capacidade de mobilização.
A capilaridade, porém, não produz transferência automática de votos.
É justamente essa relação entre força política e preferência eleitoral que a campanha começará a testar.
O mapa político e o mapa eleitoral ainda mostram fotografias diferentes
A pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho oferece o contraponto.
No cenário estimulado, Ciro Gomes aparecia com 43% das intenções de voto e Elmano de Freitas com 33%.
O levantamento ouviu 1.002 eleitores entre 24 e 28 de julho, portanto antes do fechamento das chapas e de algumas das últimas movimentações partidárias. A margem de erro informada foi de três pontos percentuais.
Registrada na Justiça Eleitoral sob o número CE-09277/2026, a pesquisa representa uma fotografia daquele momento, não uma projeção do resultado de outubro.
Mas o contraste é relevante.
Elmano apresenta uma coalizão extensa e uma rede municipal que, segundo Cid, ultrapassa 150 prefeitos. Ciro, por outro lado, aparecia dez pontos à frente naquele levantamento.
As duas informações medem dimensões diferentes da disputa.
Uma mostra estrutura e capilaridade política.
A outra registra preferência eleitoral declarada naquele momento.
Uma nova fotografia já tem data
O próximo Datafolha no Ceará será divulgado na quinta-feira, 13 de agosto.
Contratado pelo O POVO, o levantamento terá trabalho de campo entre os dias 10 e 13 de agosto e ouvirá 1.022 eleitores sobre as disputas para Governo, Senado e Presidência da República. A margem de erro prevista é de três pontos percentuais.
A pesquisa está registrada sob os números CE-04292/2026 e BR-00994/2026.
A diferença temporal importa.
No Datafolha anterior, realizado em março, quando as candidaturas ainda estavam em construção, Ciro aparecia com 47%, contra 32% de Elmano.
Agora, o instituto voltará a campo depois das convenções e com as principais chapas apresentadas ao eleitor.
Uma pesquisa isolada não permitirá atribuir eventual variação a determinada aliança, candidato ou decisão partidária. Campanhas são influenciadas por múltiplos fatores.
Mas o novo Datafolha oferecerá outra referência para observar como o eleitor recebeu o cenário produzido depois das convenções.
Senado e proporcionais terão dinâmica própria
A disputa pelo Governo é apenas uma parte do mapa.
O Ceará escolherá dois senadores, o que permite combinações de votos que não precisam reproduzir a escolha para governador.
No campo governista, Cid Gomes e Luizianne Lins disputam as vagas. Na principal chapa de oposição, Capitão Wagner e Alcides Fernandes. Outros candidatos completam a disputa.
Nas proporcionais ocorre outro movimento: o tamanho das bancadas estaduais e federais determinará quanto cada partido efetivamente pesará depois de outubro.
É a diferença entre participar de uma aliança e sair das urnas com poder político próprio.
O desenho ainda passa pelo registro
Encerradas as convenções, os partidos entram agora na fase de formalização das candidaturas.
O prazo para requerer os registros à Justiça Eleitoral termina às 19h de 15 de agosto. No dia seguinte começa a propaganda eleitoral.
Até a consolidação dessa etapa, o quadro precisa continuar sendo acompanhado pelos registros oficiais, especialmente diante das mudanças ocorridas nos últimos dias das convenções.
Leitura IN | Três mapas para acompanhar
A política cearense passou os últimos meses montando alianças.
Elmano precisou administrar uma coalizão extensa e distribuir posições entre partidos com pesos e interesses diferentes.
Ciro construiu uma alternativa reunindo forças que não necessariamente partiram do mesmo lugar — e a disputa envolvendo a União Progressista mostrou como algumas dessas costuras foram complexas.
Encerradas as convenções, três mapas precisam ser observados simultaneamente.
O mapa partidário mostra quem está formalmente com quem.
O mapa territorial mostra onde estão prefeitos, vereadores e lideranças capazes de mobilizar a campanha.
E o mapa eleitoral mostra o que o eleitor efetivamente declara que pretende fazer.
Hoje, esses mapas ainda não coincidem.
Elmano apresenta uma ampla rede política e, segundo Cid Gomes, mais de 150 prefeitos em seu campo. Ciro aparecia dez pontos à frente na Quaest divulgada antes do fechamento das chapas.
Na quinta-feira, o Datafolha acrescentará uma nova fotografia, já depois das convenções.
Nenhuma pesquisa substitui as urnas. Mas a sucessão de levantamentos permitirá acompanhar como o eleitor reage à nova configuração da disputa.
As convenções terminaram com um novo mapa político do Ceará. A partir de agora, pesquisas e, finalmente, as urnas mostrarão quanto desse desenho será acompanhado pelo eleitor.
FICHA | Cenário após as convenções
Campo governista Governo: Elmano de Freitas (PT) Vice: Gabriella Aguiar (PSD) Senado: Cid Gomes (PSB) — Júnior Mano e Júlio Ventura nas suplências Senado: Luizianne Lins (Rede) — Chagas Vieira (PDT) e Rodrigo Oliveira (MDB) nas suplências
Principal bloco oposicionista Governo: Ciro Gomes (PSDB) Vice: Roberto Cláudio (União Brasil) Senado: Capitão Wagner (União Brasil) Senado: Alcides Fernandes (PL)
Quaest — 30 de julho Ciro Gomes: 43% Elmano de Freitas: 33% 1.002 entrevistados entre 24 e 28 de julho Margem de erro: 3 pontos percentuais Registro: CE-09277/2026
Próxima fotografia Datafolha: 13 de agosto Campo: 10 a 13 de agosto 1.022 entrevistados Margem de erro: 3 pontos percentuais Registros: CE-04292/2026 e BR-00994/2026
Calendário 15 de agosto, às 19h: prazo para requerimento dos registros de candidatura 16 de agosto: início da propaganda eleitoral 4 de outubro: primeiro turno
As composições refletem o cenário apurado após as convenções e permanecem sujeitas à formalização perante a Justiça Eleitoral. A decisão do TRE-CE envolvendo a Federação União Progressista ainda pode ser submetida às instâncias superiores da Justiça Eleitoral. A afirmação de apoio de mais de 150 prefeitos a Elmano é atribuída ao senador Cid Gomes.
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