Xadrez Eleitoral
Mesmo dividido, clã Ferreira Gomes segue como força determinante na política do Ceará
Por Julia Fernandes Fraga - Em 08/04/2026 às 2:16 PM

Irmãos Lúcio, Ciro, Lia, Cid e Ivo Gomes – da esq. para a dir. Foto: Montagem
O racha entre os Ferreira Gomes ganhou contorno definitivo no tabuleiro de 2026 e colocou cada integrante da família em um campo político distinto no Ceará. A divisão ficou mais explícita após o senador Cid Gomes (PSB) admitir ser “muito constrangedor” ter um irmão e não votar nele, diante da provável candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Estado.
Em entrevista ao O Globo, Cid afirmou ver como quase incontornável a entrada de Ciro na disputa pelo Palácio da Abolição, mas reafirmou que seguirá ao lado do governador Elmano de Freitas (PT). O senador também disse trabalhar para manter o PSB na chapa governista e defender o nome do deputado federal Junior Mano para o Senado.
“As coisas estão caminhando no Ceará de um jeito que será difícil o Ciro recusar (ser candidato ao governo). Não há no grupo político dele, que tem o PL e o União Brasil, uma outra alternativa. Para mim, é muito constrangedor ter um irmão e não votar nele. É um constrangimento que eu não quero passar”, enfatizou.
Governistas
Mesmo reconhecendo o peso de Ciro no campo da oposição, Cid Gomes sustenta o apoio à reeleição de Elmano de Freitas e descarta disputar o Senado novamente. Ele também afirma que, num cenário hipotético em que fosse candidato, não esperaria o voto do irmão.
“Imaginando o seguinte cenário: caso Ciro seja candidato, ele terá dois nomes ao Senado. Se eu fosse candidato ao Senado na chapa do Elmano, o Ciro jamais trairia algum dos aliados dele para votar em mim. Não é da nossa natureza. Não é da nossa índole a traição“, explicou.
A deputada estadual Lia Gomes (PSB), única irmã, acompanha Cid e mantém apoio à base governista. De volta à Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) após deixar a Secretaria das Mulheres, ela deixa claro que seguirá a posição de Cid, mesmo com a possibilidade de enfrentar Ciro nas urnas.
“O Cid, estou sempre falando com ele. […] Ele é a pessoa a quem eu recorro para pedir opiniões. Ele é a pessoa a quem eu recorro para tomar decisões, resolver problemas e etc.”, relata.
Ao comentar o ambiente na família, Lia espera ao menos a preservação do respeito entre os irmãos. “Sempre torço para que a gente preserve o mínimo, não é? Que as pessoas entendam o papel de cada um e onde elas estão. Mas não sei se isso é possível. Às vezes fico meio desesperançosa”, esclareceu.
Oposição
Do outro lado da família está Ciro Gomes, que tem se colocado claramente como oposição à gestão estadual, sendo tido como pré-candidato ao Palácio da Abolição nas Eleições de 2026. Liderado pelo PSDB, o grupo político do ex-ministro e ex-governador está se alinhando a legendas de direita como PL e União Brasil.
Mesmo apontado como prioridade dos tucanos no Ceará, Ciro mantém cautela sobre uma eventual candidatura. Em declarações recentes, o ex-governador indicou que, embora o foco esteja no cenário estadual, também acompanha com atenção o ambiente político nacional.
Ainda nesse campo, o único dos irmãos que nunca disputou eleição, o gestor empresarial Lúcio Gomes pediu exoneração, em 3 de abril, da presidência da Companhia Docas do Ceará. Aponta-se que ele deve atuar na possível campanha de Ciro Gomes ao Governo do Estado.
Fator Ivo
O ex-prefeito de Sobral, Ivo Gomes, deixou a vida pública após o final do mandato municipal em 2024. De lá para cá, em suas próprias palavras, ele passou a “cuidar de sua vida, trabalhar no que fosse possível e ajudar a quem o buscasse”.
Agora, Ivo compartilhou nas redes sociais que se junta ao Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), em cargo ligado à presidência da instituição comandada por Aloizio Mercadante. Em nota, a instituição informou que ele trabalhará em agendas de desenvolvimento do Nordeste e programas sociais.
Vale lembrar que Ivo passou a faixa municipal a Oscar Rodrigues (União), político da oposição e que venceu a ex-governadora Izolda Cela (PSB), candidata do governo. Atualmente, no entanto, o que se vê é uma aproximação desse grupo, em especial do deputado federal Moses Rodrigues (União) – filho de Oscar – com a gestão Elmano.
A situação não é bem vista pela deputada Lia Gomes. Ela diz que, diferente de Cid, “não consegue ver o outro lado e engolir uma aliança”. Para a parlamentar, “o trabalho em Sobral está muito ruim”. “[…] Estão destruindo a cidade, destruindo um legado. Não acontece nada na cidade, não tem uma obra. O que ele anuncia é coisa que o Ivo já deixou […]. Então não me junto com esse povo”, frisa.
Racha decisivo
O rompimento entre Cid e Ciro Gomes começou na sucessão estadual de 2022. Enquanto todos eram membros do PDT, Cid defendia a candidatura da então governadora Izolda Cela, vice do atual senador Camilo Santana (PT), e Ciro sustentava o nome do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio.
O impasse levou à quebra da longa aliança entre PT e PDT no Ceará e abriu caminho para a eleição de Elmano de Freitas, que venceu com 54,02% dos votos no 1º turno. À época, Capitão Wagner (União) obteve 31,72% dos votos e Roberto Cláudio, que saiu candidato, 14,14% .
Nos anos seguintes, Cid e seu grupo se filiou ao PSB, ao que Ciro voltou ao PSDB do ex-governador Tasso Jereissati.
A divisão política – e familiar – dos Ferreira Gomes passou, então, a operar como variável central da política cearense. Neste ano, cada irmão ocupará um lugar distinto no tabuleiro, com posições que deverão explicar a geografia do poder no Estado dos próximos anos.
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