Fragmentos históricos
Exposição inédita das relíquias de São Francisco mobiliza Assis e projeta Itália no centro do turismo religioso mundial
Por Suzete Nocrato - Em 22/02/2026 às 9:59 AM

Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália. Foto: AFP
A cidade medieval de Assis volta ao epicentro da espiritualidade cristã ao abrir, pela primeira vez ao público, os restos mortais de São Francisco de Assis. A iniciativa marca o 800º aniversário de morte do santo e já redefine os números do turismo religioso na Itália, com expectativa de receber quase 400 mil visitantes até março.
Sob a inscrição em latim “Corpus Sancti Francisci”, gravada em uma vitrine de plexiglas, repousa o pequeno esqueleto do fundador da Ordem dos Franciscanos. A frase identifica, de forma solene, a quem pertencem aqueles ossos marcados pelo tempo. É a primeira vez que o público amplo pode contemplá-los — a única exposição anterior ocorreu em 1978, restrita a um grupo seleto e por apenas um dia.
Segundo o frei Giulio Cesareo, diretor de comunicação do convento franciscano, a abertura tem alcance que ultrapassa a devoção estritamente religiosa. “Pode ser uma experiência significativa para crentes e não crentes porque Francisco dá testemunho, com estes ossos tão danificados, tão consumidos, de que se entregou por completo”.
Basílica de São Francisco
O corpo do santo foi transferido para a Basílica de São Francisco em 1230, templo erguido em sua homenagem. O túmulo, entretanto, só seria localizado séculos depois, em 1818, ao término de escavações conduzidas com discrição.
O crânio sofreu danos ainda no século XIII, durante a transferência para a basílica. Hoje, o esqueleto repousa sobre um pano de seda branco, protegido por uma estrutura de alta tecnologia: além da urna de plexiglas, um relicário de vidro à prova de balas e antirroubo, totalmente transparente, cobre o corpo.
“O que é muito bonito, e que não estava previsto no início, é o fato de que um relicário de vidro à prova de balas e antirroubo, totalmente transparente, cobrirá o corpo de Francisco e isso nos permitirá não apenas ver, mas também tocar esse relicário”, acrescentou o frei Cesareo.
Câmeras de vigilância operam 24 horas por dia para garantir a integridade do local. A projeção é receber até 15 mil visitantes por dia durante a semana e até 19 mil aos sábados e domingos — um salto expressivo frente aos anos anteriores, quando a basílica registrava cerca de mil visitantes diários em dias úteis e até 4 mil nos fins de semana.
Impacto diplomático
A procura já supera as expectativas. As reservas somam “quase 400 mil (pessoas) provenientes de todas as partes do mundo, naturalmente com uma clara predominância da Itália”, informou o frei Marco Moroni, guardião do convento franciscano. “Mas também temos brasileiros, norte-americanos, africanos”, acrescentou.
O fenômeno reforça a posição da Itália como polo estratégico do patrimônio religioso global, mobilizando fiéis, estudiosos e autoridades em um fluxo que também reverbera nas relações culturais internacionais.
Especialistas asseguram que os restos não sofrerão alterações com a exposição prolongada. “A vitrine [de plexiglas] está selada, portanto não há nenhum contato com o ar externo. Na realidade, permanece nas mesmas condições em que estaria no túmulo”, afirmou o frei Cesareo. A iluminação, segundo ele, tampouco representa ameaça. “A basílica não estará iluminada como um estádio (…) porque não há nada de especial a fazer, trata-se de encontrar-se com Francisco, não é um set de cinema”, concluiu.
Contexto histórico e simbólico
Também em Assis, no Santuário da Despojamento, encontram-se as relíquias de Carlo Acutis, adolescente italiano falecido em 2006 e canonizado em setembro pelo papa Leão XIV. A coexistência desses marcos espirituais fortalece o circuito de peregrinação na região.
No próximo 4 de outubro, o dia de São Francisco de Assis voltará a ser feriado na Itália pela primeira vez em quase 50 anos — homenagem ao santo padroeiro do país e também ao Papa Francisco, falecido em abril de 2025, aos 88 anos. Ele foi o primeiro pontífice a escolher o nome do santo de Assis, gesto que consolidou uma ponte simbólica entre passado e presente na política espiritual do Vaticano.
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