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José Guedes aposta na delicadeza como potência estética em “Natureza a fio”, nova mostra da Casa D’Alva
Por Jussara Beserra - Em 06/07/2026 às 12:37 PM

Curadoria e artistas reunidas para Natureza a fio – Fotos: Reprodução
Recém-chegado da Bienal de Veneza, onde a arte têxtil ocupa posição de destaque na principal exposição desta edição, o curador José Guedes inaugura, em Fortaleza, uma mostra que dialoga diretamente com esse movimento internacional. A partir do próximo sábado (11), a Casa D’Alva apresenta Natureza a fio, reunindo as artistas Cecilia Bichucher, Lúcia Galvão e Vera Sampaio Dessart em uma exposição que transforma linhas, agulhas e bordados em linguagem contemporânea.
A coincidência chamou a atenção do próprio curador. Quando embarcou para a Itália, a exposição já estava completamente definida. Ao percorrer a Bienal, porém, encontrou na arte têxtil um dos eixos centrais da mostra, com obras de artistas como Big Chief Demond Melancon, Annale Davis e Billie Zangewa, confirmando uma tendência que vem ganhando espaço no circuito internacional.
“Nesta edição, a arte têxtil tem um grande destaque. Foi uma coincidência interessante, porque Natureza a fio já estava toda formatada”, afirma Guedes, que acompanha a Bienal de Veneza há 36 anos.
Segundo ele, esse reconhecimento internacional reforça uma linguagem que há décadas ocupa um lugar importante na história da arte. No Brasil, nomes como José Leonilson transformaram o bordado em extensão do desenho, enquanto Letícia Parente eternizou uma das obras mais emblemáticas da videoarte brasileira ao bordar, sobre a própria pele, a frase Made in Brazil. No Ceará, Guedes destaca ainda a contribuição do tapeceiro Carlinhos Morais, da artista Guiomar Marinho e, mais recentemente, dos trabalhos construtivos e abstratos de Andrea Dall’Olio.

Obra de Cecilia Bichucher integra a exposição Natureza a fio, na Casa D’Alva
É nesse contexto que Natureza a fio reúne três artistas de formações e trajetórias distintas, mas que, segundo o curador, compartilham uma rara afinidade estética.
“Elas têm caligrafias muito diferentes e percursos bastante particulares, mas atingiram um nível qualitativo muito alto. É importante dizer que elas não produziram pensando na exposição. Foi justamente a ideia curatorial que nos conduziu naturalmente até esses trabalhos.”
Embora tenha a botânica como ponto de partida, a mostra não pretende reproduzir a natureza de forma literal. Folhas, flores e formas orgânicas aparecem reinventadas por meio do bordado, em composições que privilegiam a liberdade criativa e a construção poética. “As obras são delicadas e poéticas. A natureza aqui não é ilustrativa, ela é reinventada. As formas podem ou não manter relação direta com a realidade.”
A técnica não define a contemporaneidade

Bordado de Lúcia Galvão revela sua interpretação poética da botânica
Para José Guedes, o protagonismo da arte têxtil confirma uma transformação mais ampla na produção contemporânea. Em sua avaliação, não é a tecnologia empregada que torna uma obra atual, mas sua capacidade de dialogar com o tempo presente.
“A técnica não dita o que é contemporâneo. Uma obra altamente tecnológica pode ter um conteúdo conservador, enquanto um simples traço de lápis pode conter uma enorme transgressão. A arte contemporânea é aquela que faz sentido hoje, não necessariamente a que utiliza as ferramentas de hoje.”
É por isso que ele define os trabalhos reunidos em Natureza a fio como “poemas oxigenados e vivos”, capazes de traduzir, por meio de uma técnica tradicional, questões atuais sobre a relação entre o ser humano e a natureza.
O olhar da Casa D’Alva

Vera Sampaio Dessart apresenta obra inédita na mostra Natureza a fio
À frente da Casa D’Alva há quase 12 anos, José Guedes afirma que o espaço nasceu da experiência acumulada durante sua passagem pela Casa Raimundo Cela e pelo Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar, sempre guiado por um princípio que permanece inalterado.
“Desde o começo, pensei a galeria com o mesmo rigor curatorial exigido por um museu. Nunca fiz qualquer concessão quando o assunto é qualidade.”
Ao longo desse período, a galeria apresentou obras de artistas como Amílcar de Castro, Frans Krajcberg, Alfredo Volpi, Di Cavalcanti e Ismael Nery, ao mesmo tempo em que abriu espaço para novos talentos e fortaleceu o intercâmbio com a produção latino-americana. Hoje, a Casa D’Alva mantém um convênio com a Bienal de Cuenca, uma das principais bienais do continente.
Depois de mais de cinco décadas dedicadas às artes visuais, Guedes acredita que o Ceará vive um de seus momentos mais férteis. “Nessas cinco décadas vi talentos surgirem, se consolidarem e desaparecerem. Hoje posso afirmar que temos um dos panoramas mais ricos e promissores dos últimos anos. A safra atual é de altíssimo nível.”
Ao definir a experiência que espera proporcionar ao público, ele recorre justamente às características que atravessam toda a exposição. “É uma imersão na simplicidade, no anti-espetáculo e na delicadeza.”
Com obras que transitam entre a botânica, a poesia e a arte têxtil, Natureza a fio reafirma o espaço do fazer manual na produção contemporânea e reforça a proposta curatorial da Casa D’Alva de aproximar o público de exposições pautadas pelo rigor artístico. Ao sintetizar a mostra, José Guedes não hesita: “Encantadora.”
Serviço
Natureza a fio
Abertura: 11 de julho, às 10h
Visitação: até 25 de julho
Local: Casa D’Alva – Rua João Brígido, 934, Fortaleza
Horários
- Segunda-feira: 13h às 19h
- Terça a sexta-feira: 10h às 19h
- Sábado: 9h às 13h
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