O dragão voltou

A inflação e a nossa vida

Por Ana Cristina Cavalcante - Em 13 de janeiro de 2022

E o Quico?

Um truque que todo jornalista econômico precisa seguir, quando faz suas coberturas diárias, é antes de iniciar qualquer matéria perguntar-se: “E o quê isso tem a ver com a vida das pessoas que que vão consumir esta informação?” Batizei essa regra de “E o Quico?”. Hoje, a coluna trata de um fenômeno que está na memória econômica desse país e que volta a nos atormentar. A inflação. O aumento sistêmico de preços foi uma dura realidade durante décadas no Brasil. Planos econômicos, corte de zeros, trocas de nome da moeda e até confiscos de valores de brasileiros depositados em bancos já foram instrumentos utilizados por várias equipes econômicas, de governos diversos. Nada funcionou até o Plano Real, em 1994. Uma engrenagem complexa que criou um lastro artificial entre o dólar e a nova moeda brasileira, o real. De seu período de transição – alguns lembrarão que precisávamos converter o dinheiro nas URV  (Unidades Referenciais de Valor) – até sua consolidação, o Plano Real erradicou a inflação. Mas não sem antes passar pelo fim da paridade R$ 1 x US$ 1 (foi difícil desapegar. Creiam!), e chegar à maxidesvalorização que quase o destruiu, em 1999. Sem ela, a inflação, o Brasil experimentou outras duas condições vitais para a economia: estabilidade e uma redução tremenda da vulnerabilidade do nosso mercado interno aos movimentos globais. Por algum  tempo, alta de juros nos Estados Unidos, preço do barril de petróleo, ataques especulativos em bolsas mundo afora, variações bruscas de commodities não faziam mais que uma marolinha por aqui. Nosso imenso potencial consumidor, muitas demandas a serem atendidas, uma moeda forte, emprego, renda e liquidez tiraram o Brasil do status de subdesenvolvido, no tal de Terceiro Mundo, e o elevou ao patamar de país emergente. E foi assim até que as idas ao supermercado e aos postos de combustíveis, especialmente nos últimos dois anos, trouxe o monstro – ou melhor, o dragão – de volta.

 

Os combustíveis foram um dos itens mais inflacionados do ano/Foto: BBC

As razões da volta.

 

A medida em que os juros sobem, o crédito encarece/ Foto: BBC

Em economia, não pode haver vácuo. Embora ainda exista quem acredite na mão invisível smithiana “que tudo vê e tudo resolve”, milagres econômicos não existem. Nem jamais existiram (outro dia falamos disso).  A gestão da atual equipe econômica brasileira, chegou ao poder com a promessa de um programa ultraliberal, de privatizações, estado mínimo e rigor fiscal. Sem entrar no mérito e apenas avaliando os fatos, a menos de um ano de acabar este governo o que temos é um cenário desalentador. Furo do teto de gastos, orçamento secreto, fundo eleitoral. Em suma, farra fiscal. Por outro lado, empresas fechando, desemprego alarmante e famílias inteiras nas ruas, sem teto e com fome. Não houve uma política econômica; sequer diretrizes para além de discursos vazios e inverossímeis. Ou você acredita que em tempo de pandemia, estagflação, escassez de renda e volta da fome como realidade conjuntural, vamos ver o “Brasil crescer em V”? Será que “fizemos muita besteira para o dólar chegar a R$ 5,00”? Por que não vimos “o Brasil disparar mais que qualquer país do mundo”? Simples: ninguém segurou o leme da economia brasileira desde janeiro de 2018.

 

O problema são as diferenças.

O aumento da inflação é um fenômeno global agravado pelas repercussões econômicas resultantes da Covid-19. Até os Estados Unidos, maior economia do mundo, passam por sérias dificuldades. Cada qual com suas razões, o fato é que muitos países também enfrentam, neste momento, todos os danos causados pela inflação. Não somos apenas nós, brasileiros, que temos sentido o baque dos preços ao ir às compras. A diferença, porém, está nos demais fundamentos. Por exemplo: poder de compra. Quem suporta mais o aumento do preço dos alimentos: quem tem na carteira reais ou dólares? Outro ponto: crédito. O crédito pessoal é mais tranquilo para quem o banca com juros de dois dígitos ou negativos, como acontece em economias como a do Japão, por exemplo? Para os investidores: suas reservas, seja poupança ou renda fixa, conseguem, com a remuneração atual, acompanhar o disparar do custo de vida? Não somos os únicos a enfrentar a inflação. Mas fatores domésticos se somam aos movimentos externos e contribuem para, hoje, registrarmos a 5ª maior inflação da América Latina. Uma região do mundo na qual está a Venezuela e sua saga hiperinflacionária. Num processo com forte atuação do Estado e cortes drásticos de investimentos, o país chegou a 130.060% de alta de preços ao final de 2018. Fechou 2021 com “modestos” 50% de inflação anual. Ainda no limite da hiperinflação, claro! Mas numa inquestionável e relevante curva de queda ano a ano. Boa sorte aos venezuelanos. E para nós também, que ultrapassamos a barreira concreta dos dois dígitos, com a variação de preços batendo os 10,06%. Longe dos 50% da Venezuela, mas em viés de alta.

 

Arriba, abajo, al centro y adentro!

Inflação Na Turquia: preços até 36% mais altos/ Foto: BBC

O tradicional brinde mexicano vai servir de gancho para dizer que o movimento inflacionário é mundial. A inflação dos EUA foi  mais alta dos últimos 39 anos, em novembro de 2021. Suscitou a dúvida: é pontual ou será um problema com o qual os americanos precisarão lidar por muito tempo?  A economia mais poderosa da Europa, a Alemanha, vê seu índice de preços disparar para o nível mais alto em quase três décadas. O que está acontecendo no mundo de hoje remete às décadas de 1970 e 1980, quando as pressões inflacionárias atingiram duramente países que, por diversos motivos, tiveram que enfrentar desafios de grandes proporções. Para os mercados emergentes e economias em desenvolvimento, acostumados a enfrentar grandes crises econômicas, a inflação é parte do DNA econômico e precisa de vigilância permanente. Na Turquia, a média geral na alta de preços fechou em 36%, no ano passado. Para o mês de dezembro, o México, registrou inflação de mais de 7%.

 

Aquele fator que afeta a todos.

Os juros americanos! Este é o ponto central para ser considerado em momentos de crise global como a que vivemos agora. Pergunte a qualquer economista: por que o Fed interfere tanto no funcionamento dos nossos mercados? Eles dirão: “É a economia, estúpido!” Não. O economista que responderia a esta pergunta não está sendo deselegante. Virou lenda a frase dita por um assessor na disputa presidencial entre Bill Clinton e George Bush. Ao fim e ao cabo, tudo é economia mesmo! Qualquer decisão tomada pelo Federal Reserve, presidido por Jerome Powell, provoca reações imediatas nos mercados financeiros e gera consequências no restante das economias do mundo. É tamanha a sensibilidade que basta uma mudança nas expectativas dos grandes investidores sobre o que o Fed fará para causar, de imediato, quedas nas Bolsas, altas no dólar e migrações de capitais em busca de melhores retornos.

 

Jerome Powell, Presidente do Federal Reserve/Foto: Divulgação

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