Mais uma semana turbulenta

Por Ana Cristina Cavalcante - Última Atualização 31 de outubro de 2021

O mood da sexta-feira

 

Screenshot 20211029 132212 Google

Crédito: Banco Central

O mercado financeiro viveu mais uma semana bastante agitada. E todos os abalos vieram da política. Aliás, uma característica muito forte no Brasil. A economia está intrinsecamente ligada ao clima político. Sempre foi… E é assim. Como a coluna antecipou, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, elevou os juros na ponta mais alta. Hoje, temos uma Selic de 7,75%. A sexta alta seguida e o maior patamar desde 2017 (ali, a taxa era de 8,5%). O aumento chegou a 1,5 ponto percentual. Outro dado emblemático: trata-se da maior elevação em uma única reunião desde 2002! Naquele ano, o Copom elevou a Selic em 3 pontos percentuais. Os argumentos do Comitê são o próprio desempenho dos indicadores econômicos. E a inflação.

 

Remédio para febre

Juros mais caros são apenas remédio para febre. Servem para conter  movimentos inflacionários expansionistas. Preço subindo muito e rápido? Juro nele. É uma daquelas regrinhas da economia de que tanto falamos por aqui. A questão é: febre é sintoma; não a doença em si. O desafio da equipe econômica, no fim do seu penúltimo ano de mandato do atual governo, é melhorar o ambiente econômico para que os indicadores não provoquem mais a febre. Ou melhor, a inflação. Se nada mudar, chegaremos ao final do ano da pior maneira. Com preços altos, crédito caro e pouquíssimo dinheiro circulando. Às vésperas do Natal. Principal data para a economia brasileira, extremamente dependente do consumo das famílias. E é sempre bom esclarecer que essas famílias, em sua maioria esmagadora, representam a parcela da população que recebe salário. Ricos, milionários e bilionários não precisam esperar o 13º para fazer suas compras.

 

Quando atingir a meta, a gente dobra

Está no imaginário dos agentes da economia a frase dita pela ex-presidente Dilma Rousseff, em certa ocasião em que foi perguntada sobre metas fiscais. Ela respondeu: “Quando atingirmos a meta, a gente dobra”. Hoje, vivemos mais um momento de pressão fiscal. Todos os dias somos bombardeados pelo discurso em torno do teto de gastos. De furos, buracos gigantes, estratégias do tipo Black Friday: tudo pela metade do dobro. A meta que limita os gastos da União, se não foi dobrada, foi muito expandida para que caiba nela o auxílio emergencial. Também conhecido como passaporte para reeleição. Tudo a favor do atendimento aos brasileiros que perderam ou jamais tiveram renda. Por outro lado, tudo contra rasgar dinheiro agora achando que quem vier pagará. Na verdade, não paga quem vem. Nós pagamos essa conta.

 

Não! Esqueçam a meta

Assim como é na vida, em economia “tudo tem três lados”. A volta da inflação com a força que assistimos agora pode representar uma opção interessante para investimentos. Já há muitos analistas receitando, como opção aos seus clientes, ativos lastreados pela taxa inflacionária. Quem diria? A cartilha liberal diria. E está dizendo. Nas últimas duas semanas, houve uma explosão na busca por contratos DIs. Este ativo é patamar para projeções dos juros. Ou seja, são cotados a juros futuros. E, se o viés é de alta, vale a pena proteger seu dinheiro com DIs. Este é um reflexo da expectativa dos investidores. Eles temem que o risco sobre as contas públicas cause uma fuga de capital estrangeiro. Recursos que,  certamente, migrarão para mercados mais estáveis ou farão hedge no dólar.

 

O dilema hamletiano

 

Screenshot 20211029 132619 Google

Crédito: Uol

 

A fuga de dólares significa pressão imediata sobre a inflação. Isto também está no “manual básico do economês”.  Embora ainda haja dúvidas sobre isso, o Banco Central do Brasil  é independente para adotar as medidas monetárias que achar convenientes.  Nesta semana que termina, jogou milhares da moeda norte-americana no mercado para tentar conter sua subida. Lembrem que o Brasil até bem pouco tempo tinha reservas da ordem de US$ 360 bilhões . Ainda bem. Porque a situação atual vai demandar do presidente do BC, Roberto Campos Neto, não mais milhares. Mas milhões de dólares das reservas cambiais brasileiras, já bem derretidas.  Que dilema hamletiano para o neto de Bob Fields!

 

Dinheiro custa caro

Não. Vocês não leram errado. E nem houve lapso na hora de pensar neste título. Quando cada um de nós vai ao mercado financeiro pedir um empréstimo, por exemplo, o que de fato estamos fazendo? Comprando dinheiro a ser  pago com juros, taxas de administração, spreads e outros penduricalhos a depender da instituição à qual se recorre.  O dinheiro que pedimos emprestado, na realidade, estamos comprando. E bem caro. Inflação associada a crédito escasso e inacessível, junto com  pouca liquidez, representam menor consumo. E isso é muito ruim para uma economia dependente de compras/vendas e do crédito. O Natal pode ser mais tranquilo para Santa Claus. Também conhecido como Papai Noel. Mas para a engrenagem econômica, não.

 

A Renda Fixa tá on

Outro movimento que comprova a tese do “tudo tem três lados”. Os investidores passaram a olhar a renda fixa com outros olhos. Voltaram a ver alguma atratividade neste papel. Então, quem apostava muito na diversificação – leia-se jogar mais na Bolsa, que todo dia passa dos 100 mil pontos – já cogita que ações sofrem efeitos da inflação. Como? Empresas com ações no mercado de capitais e que têm contratos indexados a algum índice regulado pela inflação, como o IPCA, e que repassam esta alta para os preços ao consumidor. Viram o desempenho da Petrobras e a abundância de dividendos anunciados ontem?

 

Fica a dica

Diante deste cenário e sem estabilidade à vista, o melhor a fazer é ser conservador. Títulos do Tesouro IPCA+, por exemplo, já superam 5% em remuneração real. E numa perspectiva de inflação de 10,5% em 12 meses, como também já antecipou a coluna. As palavras mágicas são proteção e cautela. Mas se preferir correr o risco e aproveitar oportunidades que podem ou não surgir, a dica da coluna é: meditação e relaxante muscular. Ou, como hoje é sexta-feira, uma musiquinha pode deixar mais suave tanto  a semana turbulenta que passou como os dias agitados  que muito provavelmente virão.

 

 

 

 

 

 

 

Mais notícias

Ver tudo de IN Express