O petróleo é nosso, mas a Petrobras pode não ser mais…

Por Ana Cristina Cavalcante - Em 26 de outubro de 2021

Vender, ok. Mas como?

 

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Créditos: Divulgação

 

Ontem o dia girou em torno de mais uma declaração do presidente da República, avalizada por seu ministro da Economia, sobre um tipo de privatização da Petrobras. A maior empresa do Governo do Brasil. Uma das maiores petrolíferas do Planeta. E uma companhia de vanguarda em tecnologia de prospecção de óleo e gás. O maior patrimônio empresarial da nação e podemos dizer isso sem medo de errar.  Ações cotadas em Bolsas de Valores de todo o mundo, megainvestidores com parcelas importantes do capital da empresa. E trabalhadores que trocaram seu FGTS por participações no bolo societário mais desejado. O modelo apresentado pelo governo prevê a entrada da Petrobras no chamado Novo Mercado, uma vitrine de luxo para empresas de capital aberto estarem. O modelo sugerido sem nenhum caráter oficial, apenas lançado no ar,  é o da redução da participação hoje de 50,5% para algo em torno de 36%. O detalhe importante aqui: a opção apresentada diz que o governo abre mão das ações ordinárias – com direto a voto – mas exige ficar com o poder de nomear o presidente da companhia. Na verdade, este foi o instrumento encontrado para que a operação não necessite de uma PEC – Proposta de Emenda à Constituição. A PEC precisa de ampla maioria dos votos do parlamentares em dois turnos, no Câmara, e ainda segue para ratificação, ou não, do Senado.

 

Hipersensibilidade do mercado

A mera menção feita sobre qualquer modelagem para levar a Petrobras para a iniciativa privada provoca efeito imediato no mercado. As ações da companhia subiram 7% na tarde de ontem. Afinal, quem não quer ter um pedacinho que seja de uma empresa gigante, lucrativa, reconhecida internacionalmente e detentora das tecnologias que precisa para crescer ainda mais. Os donos de ações preferenciais que o digam. A depender do desempenho da empresa, seus dividendos ficam maiores. Privatizada, esperara-se uma busca muito mais predadora por lucro do que a realizada por um governo que, necessariamente, entende a empresa dentro de um contexto em que predomina o bem-estar de toda a nação. Aspectos como soberania energética, preços administrados para os produtos  – estamos falando aqui de gasolina, diesel, gás de cozinha, asfalto e uma infinidade de outros itens. Além de muito destaque no comércio exterior.

 

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Redução de danos

Quem observa a economia de perto logo percebe que os movimentos da política têm repercussão direta no seu desempenho. Mas e o contrário? Será que também acontece? A equipe econômica do atual governo do Brasil é liberal e fiscalista. Tem como manual a Escola de Chicago. São todos discípulos de Milton Friedman, aquele que nos lembra sempre: “Não há almoço de graça”. E, de fato, não há. A semana passada foi um verdadeiro desastre para o Ministério da Economia. Fez-se buraco negro no teto de gastos, aprovados auxílios emergenciais mais robustos, derrotas no Parlamento que doeram na alma dos Chicago Boys de Brasília. Seguidas falas do ministro Paulo Guedes, sozinho e acompanhado do presidente da República. Argumentos e discursos disfuncionais tais como “somos a maior economia verde do mundo”, a repetitiva “vamos ter recuperação em V” e até a inacreditável “Não furamos o teto”. Não é difícil cogitar que alguém pode ter tudo a brilhante ideia de “vamos vender a Petrobras” como forma de recuperar a credibilidade liberal para a equipe econômica e o governo. Qualquer mudança na Petrobras é um trabalho hercúleo de articulação e poder político. Depende do Congresso, depende da superestrutura do mercado e até da vontade da população (em menor escala, nestes tempos, óbvio). E finalizando o roteiro, a expressão mais repetida por Paulo Guedes ultimamente tem sido a “damage reduction”.  Quem sabe essa não seja a real motivação para toda essa celeuma sobre Petrobras? A ver.

 

Sobre filas e preços

 

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Filas nas bombas de combustíveis pelo Brasil, ontem no fim da tarde e à noite. Todos preocupados com a privatização da Petrobras? Não, mesmo. As pessoas correram aos postos porque foi anunciado mais um aumento de preço de gasolina, diesel e etanol (este porque contém uma parcela de gasolina na sua composição). A Petrobras eleva hoje o preço da gasolina em 9,15% e de 7,05% para o diesel, nas refinarias. O ônus de repassar para os consumidores ficam como os postos. “Tem que perguntar lá”. Combustíveis mais caros são um pavio curtíssimo para aumento generalizado de preços. Do supermercado aos alugueis imobiliários. Fretes mais caros, frutas, verduras, leite, pão mais caros. Itens de consumo de toda ordem recebem os reflexos dos preços dos combustíveis. Será que esta é a razão de este ser um preço administrado, assim como energia e água? Vale a pena refletir sobre isso. Nosso #ficadadica de hoje.

 

 

 

 

 

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