Receita de Ano Novo

Por Ana Cristina Cavalcante - Em 6 de janeiro de 2022

Como ter um 2022 da cor do arco-íris?

Muita gente está com a impressão de que o ano não virou. Continuamos em pandemia – agora com um surto de gripe – , inflação, desemprego, queda na produção industrial, juros altos, falta de liquidez e poder de compra baixo. A passagem do tempo não muda as coisas por si só. Aliás, tempo é isso… Continuidade. Por um momento, não vamos recorrer a números, equações matemáticas, modelos complicados. Experimentemos olhar apenas para o efeito desses fundamentos na nossa vida cotidiana. A conclusão é: a Economia está como é possível estar. E vai caminhar, em 2022, como é possível caminhar. Nossas idas ao supermercado ainda nos apresentarão  preços de alimentos e itens essenciais subindo. Em menor velocidade. A criação de empregos seguirá muito abaixo das necessidades de um mercado de trabalho com cerca de 13 milhões de pessoas desocupadas. Os juros se manterão altos.  Mesmo que o Comitê de Política Econômica (Copom) resolva ir baixando, isso se dará paulatinamente. Juros altos, crédito caro, consumo baixo. A relação dólar x real permanecerá discrepante, enfraquecendo cada vez mais a nossa moeda. Tudo isso, esta coluna vem repetindo sempre. Mas é como diz o poema: “para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido)… para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser” é preciso ação. E política.

 

Não precisa lista de boas intenções.

 

Banco Central abriga o Copom/Foto: Divulgação

 

O primeiro boletim Focus de 2022 confirmou o quê já se esperava. O  índice de inflação oficial (IPCA) de 2022 continua a apontar para o segundo ano de rompimento da meta a ser perseguida pelo Banco Central (BC). A projeção é 5,03%, contra 5,00% da meta deste ano. O Focus é formado por um colegiado de economistas que avaliam semanalmente as condições econômicas. Para os juros Selic, a projeção está em 11,50% ao fim de 2022. No câmbio, a projeção também indica a manutenção do cenário. A estimativa fica em R$ 5,60 por cada US$ 1. Na próxima semana tudo pode mudar? Não. Inútil  “fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem”.

 

Para que venha a recompensa…

Para tudo ser “claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver”, é preciso estratégia. Uma verdade dura: o atual governo e sua equipe econômica jamais traçaram sequer uma singela “ponte para o futuro”, como vimos não faz muito tempo certo vice-presidente fazer quando assumiu o poder. Não foi exatamente para o futuro que caminhamos. Porém, havia um plano e foi cumprido com alguns fetiches do mercado sendo entregues. Como as reformas trabalhista e previdenciária. Funcionou? Há muitas controvérsias. Com o ministro da Economia Paulo Guedes nada foi planejado, nada foi executado e a economia andou sozinha, a seu bel desprazer. Até a mão invisível de Adam Smith se recusou a participar deste “não cenário” em que estamos há três anos.

 

Um tempo melhor? É preciso merecê-lo.

E Commerce

Comércio online e híbrido puxaram as vendas de Natal/Foto: Divulgação

Ainda no Focus desta semana, o  mercado financeiro diminuiu novamente a previsão para o crescimento da economia brasileira em 2022. O relatório aponta para um Produto Interno Bruto (PIB) de 0,36% ante 0,42% estimado na semana passada. Acrescentado um dado a este: a produção industrial caiu por seis meses consecutivos. A preço da última medição em novembro, está na casa de – 0,2%. No varejo de Natal, a única boa notícia.  As vendas  cresceram 11,1% em relação a igual período do ano passado. E foram puxadas pelo comércio online. Os dados são do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), criado pela empresa de meios de pagamento. Precisamos de muito esforço para reverter o ritmo da economia brasileira. Toda a engrenagem requer um único elemento que determina se vai girar e em qual velocidade. E esse elemento é a renda. Sem ela, nem trabalhadores (a maioria desempregados), nem empresários serão felizes. A economia brasileira é quase que exclusivamente baseada no consumo das famílias. Com salário baixo ou nenhum, nem trilhões de commodities exportadas serão capazes de fazer a riqueza desse país crescer. É fato! “Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo”…

 

#PensamentoEconômico

 

O poeta Carlos Drummond de Andrade/Foto: Revista Bula

“… tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre”.

A coluna de hoje foi um #PensamentoEconômico do começo ao fim. Com a ajuda de Carlos Drummond de Andrade. Talvez o nosso poeta mais popular, conhecido e reconhecido por todos os brasileiros, ricos ou pobres. Sua “Receita de Ano Novo” cabe como uma luva na descrição da economia nacional destes tempos. Quem sabe, em 2023, a gente não desperte o Ano Novo que cochila dentro de nós.

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