Presidente da Faec aponta irrigação, tecnologia, carcinicultura e pecuária como vetores de um setor que busca ampliar exportações, industrializar a produção e gerar mais renda no Interior

Amilcar Silveira
O Ceará de 2035 será decidido, em boa parte, no Interior. Em um Estado que aprendeu a produzir sob as condições do semiárido, tecnologia, irrigação e gestão eficiente da água começam a redesenhar as fronteiras do agronegócio. O setor já responde por mais de um quinto de tudo o que o Ceará vende ao mundo.
Em 2025, as exportações do agronegócio cearense alcançaram US$ 498,1 milhões, crescimento de 18,1% sobre o ano anterior e participação aproximada de 21,8% no valor total exportado pelo Estado, segundo levantamento da Secretaria do Desenvolvimento Econômico com base nos dados do Comex Stat.
Para Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), a próxima década poderá consolidar um novo estágio do setor, impulsionado pela agricultura irrigada, pela carcinicultura, pela pecuária tecnificada e pela incorporação crescente de inteligência artificial, agricultura de precisão, sensoriamento remoto e gestão de dados.
Esse avanço, entretanto, dependerá de condições objetivas. Segurança hídrica, infraestrutura, energia de qualidade, crédito, logística, assistência técnica e menos burocracia estarão no centro da equação. Mais do que ampliar a produção, o desafio será industrializar, capturar no Estado uma parcela maior da riqueza gerada e criar oportunidades para uma nova geração permanecer no campo.
Nesta entrevista para a série Ceará 2035, Amílcar Silveira analisa as transformações em curso e projeta um agro não apenas mais produtivo, mas capaz de contribuir para o surgimento de uma nova classe média rural no Interior.
“A inovação deixou de ser diferencial e passou a ser condição para competir”
O agronegócio cearense vive um momento diferente daquele de alguns anos atrás. Na sua avaliação, quais são as principais transformações que o setor experimenta atualmente?
Amílcar Silveira — O agro cearense amadureceu. Hoje temos um produtor cada vez mais profissional e conectado à tecnologia, que busca gerir a propriedade de forma eficiente, por meio de soluções que aumentem a produtividade com sustentabilidade.
O produtor entende que inovação deixou de ser diferencial e passou a ser condição para competir. O Sistema Faec/Senar, por meio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), tem trabalhado exatamente para acelerar essa transformação, levando capacitação e assistência técnica para que pequenos, médios e grandes produtores possam evoluir juntos.
A ATeG combina orientação técnica e acompanhamento gerencial, permitindo monitorar custos, produtividade e resultados da propriedade.
Agricultura irrigada e produção de maior valor
Quais serão os principais motores do agronegócio cearense até 2035?
AS — O Ceará reúne condições para consolidar cadeias produtivas muito competitivas. A agricultura irrigada continuará sendo um dos grandes vetores de crescimento, especialmente na produção de frutas, legumes, verduras, flores, hortaliças e outras culturas de alto valor agregado.
Há também enorme potencial para a carcinicultura e para a bovinocultura leiteira, que vem avançando em tecnologia e produtividade. O algodão vive um processo de retomada e poderá ampliar sua participação na economia estadual. Da mesma forma, culturas de nicho, como os cafés especiais, podem ganhar espaço.
O futuro do agro cearense passa pela diversificação, pela agregação de valor e pela produção voltada tanto ao mercado interno quanto às exportações.
Os números sustentam a aposta na fruticultura: em 2025, as exportações cearenses de frutas cresceram quase um terço em valor, lideradas pelo melão, seguido por melancia, banana, manga, pitaia, mamão e limão.
Ceará lidera produção nacional de camarão cultivado
A fruticultura irrigada, a carcinicultura, a pecuária e a produção de alimentos vêm ampliando sua importância econômica. Quais dessas cadeias produtivas apresentam maior potencial de crescimento?
AS — A fruticultura irrigada continuará sendo uma das grandes referências do Ceará pela qualidade da produção e pela inserção no mercado internacional.
A carcinicultura também mantém elevado potencial, desde que conte com segurança jurídica e ambiente favorável aos investimentos. A pecuária, especialmente a leiteira, tem evoluído de forma consistente graças aos ganhos tecnológicos.
A liderança em volume abre uma nova etapa: ampliar o beneficiamento, avançar em certificação, rastreabilidade e biossegurança e aumentar a presença dos produtos cearenses nos mercados internacionais.
O Ceará responde por mais da metade do camarão cultivado no Brasil — e a produção estadual voltou a crescer em 2025, segundo levantamento preliminar da Secretaria do Desenvolvimento Econômico.
Crédito precisa acompanhar a transformação
O acesso ao crédito continua sendo um dos grandes desafios do setor. Como o senhor avalia o diálogo recente entre a Faec, os produtores e o Banco do Nordeste?
AS — O Banco do Nordeste é um parceiro estratégico para o desenvolvimento do agro nordestino e temos buscado manter uma interlocução permanente para aproximar ainda mais o crédito das necessidades reais do produtor rural.
Nosso objetivo é tornar o acesso aos financiamentos mais ágil, menos burocrático e mais adequado às diferentes atividades desenvolvidas no campo. Quando produtores, instituições financeiras e entidades representativas trabalham em conjunto, todos ganham.
Para o Plano Safra 2025/2026, o Banco do Nordeste programou R$ 21,9 bilhões em crédito rural para toda a sua área de atuação — que abrange o Nordeste e partes de Minas Gerais e Espírito Santo —, dos quais R$ 10,2 bilhões foram destinados à agricultura familiar.
Do campo aos mercados internacionais
O Ceará reúne diferenciais competitivos importantes, como localização geográfica, Porto do Pecém e potencial exportador. O que ainda falta para transformar essas vantagens em maior geração de riqueza no campo?
AS — Reunimos condições importantes para avançar. Temos alta luminosidade, tecnologia, produtores competentes, empresários comprometidos, um setor industrial parceiro, posição geográfica privilegiada, proximidade com grandes mercados consumidores internacionais e equipamentos estratégicos, como o Porto do Pecém, que abre portas do Ceará para o mundo.
O desafio agora é transformar esse potencial em competitividade permanente. Isso passa por ampliar a infraestrutura hídrica, melhorar a logística, garantir fornecimento de energia de qualidade e reduzir a burocracia.
Quando esses fatores caminham juntos, conseguimos agregar valor à produção, atrair novos investimentos e gerar mais riqueza para o Interior do Estado.
O ganho estratégico, contudo, não estará apenas no aumento dos embarques. Até 2035, o desafio será ampliar a parcela de produtos processados, beneficiados e comercializados com marcas de origem cearense, capturando no Estado uma parte maior da riqueza gerada pelas cadeias produtivas.
Tecnologia chega definitivamente ao campo
Qual será o papel da inovação, da tecnologia e da agricultura de precisão no futuro do agro cearense?
AS — Não existe futuro para o agronegócio sem tecnologia. É ela que nos permite produzir mais, utilizar melhor os recursos naturais, reduzir custos, aumentar a eficiência e melhorar a tomada de decisão.
A agricultura de precisão, a inteligência artificial, o sensoriamento remoto, os sistemas de irrigação inteligentes e o uso de dados já estão transformando a realidade das propriedades rurais.
O desafio será ampliar esse acesso para que essas soluções cheguem cada vez mais aos pequenos e médios produtores, tornando todo o setor mais competitivo.
Água será decisiva para o Ceará de 2035
A segurança hídrica continua sendo um tema central para o desenvolvimento do setor. Como o senhor avalia os avanços e quais investimentos ainda considera prioritários?
AS — O Ceará acumulou experiência importante na gestão dos recursos hídricos. Mas segurança hídrica exige investimento permanente.
Precisamos melhorar a gestão dos nossos perímetros irrigados, focando na produção de produtos de maior valor agregado. Além de fortalecer projetos de irrigação, devemos ampliar a infraestrutura de armazenamento e distribuição, expandir o reúso da água onde for tecnicamente possível e investir continuamente em tecnologias que aumentem a eficiência hídrica.
Em um Estado sujeito à irregularidade das chuvas e à elevada evaporação, o avanço do agro dependerá cada vez menos do simples aumento da oferta de água e mais da capacidade de gerar maior valor econômico por metro cúbico utilizado.
Integração para acelerar investimentos
Nos últimos anos observamos maior aproximação entre produtores, universidades, Governo, Assembleia Legislativa e instituições financeiras. Essa integração pode acelerar o crescimento do agronegócio?
AS — Sem dúvida. O desenvolvimento do agro acontece quando conhecimento, pesquisa, políticas públicas, financiamento e iniciativa privada trabalham na mesma direção.
Essa aproximação cria um ambiente favorável a novos investimentos. O Ceará tem mostrado que o diálogo institucional gera resultados concretos e fortalece todo o ambiente de negócios do agronegócio.
“O Sol é nosso aliado”
Que imagem o senhor gostaria que o Brasil tivesse do agronegócio cearense nos próximos dez anos?
AS — Somos um Estado que aprendeu a produzir com inteligência, utilizando tecnologia e valorizando cada recurso disponível. O Sol é nosso aliado.
Quero que o agro cearense seja reconhecido pela qualidade dos seus produtos, pela força dos seus produtores e pela capacidade de competir nos mercados mais exigentes do mundo.
Uma nova classe média rural
Se estivermos conversando novamente em 2035, qual legado o senhor espera que esta geração de produtores rurais e lideranças do agro tenha deixado para o Ceará?
AS — Espero que possamos olhar para trás e dizer que contribuímos para construir um agro ainda mais moderno, competitivo e sustentável.
Que tenhamos ampliado as oportunidades para os jovens permanecerem no campo, criando uma nova classe média rural no Interior do Ceará. Queremos consolidar novas cadeias produtivas e aumentar a participação do Ceará nos mercados nacional e internacional.
Espero que o legado seja um setor unido, capaz de gerar prosperidade para milhares de famílias cearenses, sempre contribuindo para o desenvolvimento do nosso Estado.
A visão projetada por Amílcar Silveira ultrapassa o aumento da produção. Pressupõe um Interior capaz de gerar renda, oportunidades e perspectivas profissionais para uma nova geração.
O Ceará já demonstra capacidade competitiva em cadeias como a fruticultura e a carcinicultura. A próxima década dirá se o Estado conseguirá combinar sol, conhecimento e uso inteligente da água para transformar suas vantagens produtivas em algo ainda mais relevante: prosperidade distribuída pelo Interior.


























