Energia Renovável

Brasil desperdiça 20% da energia solar e eólica em 2025 e perde o equivalente a dez meses de Belo Monte

Por Suzete Nocrato - Em 04/02/2026 às 10:21 AM

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A expansão da geração distribuída,  composta majoritariamente por painéis solares residenciais, ultrapassa 42 gigawatts (GW) de capacidade instalada. Foto: Divulgação

O Brasil vive um paradoxo energético cada vez mais evidente: enquanto amplia rapidamente sua capacidade de energia solar e energia eólica, desperdiça uma parcela relevante dessa produção. Em 2025, cerca de 20% da energia renovável que poderia ter sido gerada foi descartada por meio de cortes operacionais aplicados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — procedimento conhecido como curtailment — para conter a sobrecarga do sistema elétrico durante períodos de baixa demanda.

O volume de energia desperdiçada impressiona. Segundo dados compilados pela Volt Robotics e divulgados pela Folha de São Paulo, a perda acumulada em 2025 equivale a quase dez meses de geração da usina de Belo Monte, uma das maiores hidrelétricas do país. O problema se concentra sobretudo durante o dia, quando a produção solar atinge seu pico e a demanda diminui, especialmente aos fins de semana, período em que comércio e indústria consomem menos eletricidade.

Em 16 dias de 2025, o sistema elétrico brasileiro operou próximo ao limite máximo por excesso de energia disponível. O dado contrasta fortemente com 2024, quando essa situação extrema foi registrada em apenas um único dia. A expansão acelerada da geração distribuída — composta majoritariamente por painéis solares residenciais — ajuda a explicar o cenário. Atualmente, essa modalidade já ultrapassa 42 gigawatts (GW) de capacidade instalada e deve alcançar 50 GW até 2028, ampliando ainda mais a pressão sobre a rede.

O desequilíbrio diário entre oferta e consumo cria um efeito colateral adicional: à noite, quando a energia solar deixa de contribuir, o sistema precisa recorrer ao acionamento de usinas termelétricas, fontes mais caras e poluentes. Assim, o excesso diurno convive com a escassez noturna, revelando limitações estruturais do modelo atual.

Além do impacto técnico e ambiental, o desperdício também se traduz em prejuízo econômico. As geradoras de energia estimam perdas financeiras de R$ 6,5 bilhões em 2025 em razão dos cortes. De acordo com a Volt Robotics, a energia renovável descartada neste ano seria suficiente para abastecer por um ano 600 mil carros elétricos, manter 40 grandes data centers em operação ou suprir o consumo mensal de 16 milhões de residências.

O avanço das fontes renováveis consolida o Brasil como potência energética limpa, mas os dados revelam um desafio urgente: sem investimentos em armazenamento de energia, modernização da rede e gestão da demanda, o país corre o risco de continuar transformando abundância em desperdício — mesmo em meio à transição energética.

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