ALÉM DO CARRO ELÉTRICO

BYD aposta no mercado do Brasil para liderar nova corrida energética global

Por Marcelo Cabral - Em 03/03/2026 às 11:11 AM

Enquanto o debate público ainda associa a BYD apenas aos carros elétricos, a estratégia da gigante chinesa no Brasil aponta para algo muito maior: transformar o País em uma plataforma industrial e energética da próxima década. Em entrevista ao programa É Negócio, da CNN Brasil, o vice-presidente sênior da companhia no Brasil, Alexandre Baldy, revelou planos que vão da produção nacional em larga escala ao armazenamento de energia – um mercado considerado por especialistas como um dos mais promissores da nova economia global.

A leitura é clara: a disputa que começa nos veículos elétricos avança rapidamente para tecnologia, infraestrutura energética e inteligência artificial.

Alexandre Baldy destaca desafios do segmento de energia no País           Foto: Douglas Filho/Portal IN

Brasil no centro da expansão global

O principal movimento da BYD está na planta industrial de Camaçari, na Bahia, transformada no maior projeto da empresa fora da China. O investimento já ultrapassa R$ 3 bilhões e deve alcançar R$ 5,5 bilhões até 2027, com capacidade futura estimada em até 600 mil veículos por ano.

A operação evolui gradualmente da montagem inicial para a fabricação completa, incluindo estamparia, soldagem e pintura, consolidando a nacionalização da produção e reposicionando o Nordeste dentro da nova cadeia automotiva global.

Segundo Baldy, o objetivo é construir presença estrutural no País. “A BYD veio para ser uma marca brasileira e desenvolver uma indústria de longo prazo”. A escolha da região também acompanha uma mudança silenciosa na geografia industrial brasileira, com o Nordeste ganhando relevância estratégica diante da transição energética e da expansão das energias renováveis.

Energia e inteligência artificial

O trecho mais relevante da entrevista aponta para além da mobilidade elétrica. A companhia avalia entrar no mercado brasileiro de armazenamento de energia, segmento essencial para equilibrar o crescimento acelerado da geração solar no País.

Hoje, alguns estados brasileiros já produzem mais energia do que consomem, criando gargalos na distribuição elétrica. O problema, segundo o executivo, não está na geração – mas na capacidade de armazenar e redistribuir essa eletricidade. “O Brasil tem abundância energética. O desafio agora é conseguir armazenar essa energia”.

A tecnologia de baterias em larga escala, área em que a BYD é líder global, surge como solução para um sistema elétrico cada vez mais pressionado pelo avanço da energia fotovoltaica – especialmente no Nordeste, onde a geração renovável cresce acima da média nacional.

Outro ponto destacado por Baldy foi o uso crescente da inteligência artificial dentro da companhia. A tecnologia já auxilia análises de mercado, posicionamento de produtos e estratégias de investimento, refletindo a transformação da indústria automotiva em um setor cada vez mais orientado por dados. A mudança reforça a visão da BYD como uma empresa de tecnologia que utiliza o automóvel como plataforma, e não como produto final.

A entrada da marca no Brasil começou pelo segmento premium, estratégia pensada para reduzir a resistência histórica do consumidor às montadoras chinesas. Com foco em tecnologia embarcada e competitividade de preço, a empresa acelerou a aceitação da marca e expandiu rapidamente sua rede de concessionárias. Em apenas três anos, a BYD já ultrapassou 220 mil veículos emplacados no País – um crescimento sem precedentes para uma nova operação automotiva.

Disputa além dos carros

Fundada como fabricante de baterias, a BYD desenvolve hoje semicondutores, sistemas eletrônicos e soluções energéticas completas. Esse modelo verticalizado ajuda a explicar a pressão crescente sobre montadoras tradicionais e a rápida mudança competitiva no setor.

A avaliação implícita é que o mercado automotivo passa por uma transição semelhante à vivida pela indústria de tecnologia duas décadas atrás: vence quem controla a plataforma energética e digital.

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