Negócios & Economia | Infraestrutura
Capital privado transforma PPPs sociais em nova classe de investimentos
Por Fernando Benevides - Em 01/08/2026 às 1:56 PM
Engeform e Galapagos concluíram a captação de R$ 190 milhões para um fundo voltado à infraestrutura social. O movimento mostra como contratos públicos bem estruturados passam a disputar recursos do mercado de capitais — e ajuda a explicar por que alguns projetos atraem investidores enquanto outros ficam sem propostas.

Cristiano Chehin -sócio e Head de Novos Negócios da Galapagos Capital Foto: Portal IN
Durante décadas, infraestrutura significava construir rodovias, aeroportos, portos ou usinas. Agora, o mercado financeiro começa a olhar para outro tipo de ativo: escolas, hospitais, moradias populares e equipamentos públicos estruturados por concessões e parcerias público-privadas (PPPs).
Esse movimento ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (31), quando a Engeform Gestão de Recursos e a Galapagos Capital anunciaram a conclusão da captação de R$ 190 milhões para um fundo dedicado à infraestrutura social, marcando a operação com o toque do sino da B3.
Estruturado como Fundo de Investimento em Participações em Infraestrutura (FIP-IE), o veículo reúne cerca de 1.000 cotistas e nasce com participação de 50% da PPP das Escolas de São Paulo, por meio de uma sociedade formada com a Kinea. O mandato prevê investimentos em concessões de educação, saúde e habitação.
A notícia, porém, vai além do lançamento de um novo fundo.
Ela sinaliza que infraestrutura social começa a disputar capital privado da mesma forma que rodovias, aeroportos e projetos de energia passaram a fazer na última década.
Como se ganha dinheiro construindo escolas públicas
A meta declarada pelos gestores é entregar retorno de IPCA + 15% ao ano ao longo de um ciclo de 15 anos.
O mecanismo não se baseia na renda recorrente do ativo, mas na valorização da concessão ao longo do tempo.
O fundo entra no projeto durante a fase de construção, quando o risco é maior e o valor do ativo ainda é reduzido. À medida que a obra é concluída e a concessão entra em operação, o fluxo de caixa se estabiliza e a participação se valoriza. O ganho é capturado na venda do ativo maduro, permitindo reciclar capital para novos investimentos.
A PPP das Escolas de São Paulo ilustra esse modelo. São 17 unidades distribuídas em 14 municípios. Oito já foram entregues e começam a receber alunos neste semestre. Outras seis tiveram a conclusão antecipada em relação ao cronograma original.
Cada escola entregue representa o início da contraprestação pública prevista em contrato.
Cada antecipação significa geração de caixa antes do previsto.
É essa aceleração que permite financiar novos projetos sem esperar o encerramento da concessão.
O filtro que separa projeto de ativo
O aspecto mais relevante da estratégia talvez não seja financeiro.
É o critério utilizado para selecionar os investimentos.
O fundo não procura o maior projeto nem o mais conhecido.
Procura contratos capazes de reduzir risco.
Segundo Thomas Averbuck, sócio e diretor executivo de Private Equity da Galapagos Capital, ativos de infraestrutura social apresentam baixa complexidade operacional combinada a receitas previsíveis.
“Estamos falando, no fim do dia, de edifícios. É muito diferente de projetos extremamente complexos, como um túnel ou uma grande obra subterrânea.”
O exemplo citado por Luciana Improta, diretora de Gestão da Engeform, ajuda a entender essa lógica.
A gestora avaliou participar de uma PPP municipal na região Sul do País, mas desistiu depois de concluir que o edital não oferecia garantias suficientes para proteger o fluxo financeiro da concessão.
O episódio mostra que, para esse tipo de investidor, mérito social não substitui segurança jurídica.
A vantagem de ter uma construtora dentro de casa
Outro diferencial está na estrutura do próprio grupo.
A Engeform Gestão administra os investimentos.
A Engeform Engenharia executa as obras.
Na PPP das Escolas, essa integração permitiu vencer a concorrência utilizando um BDI inferior ao praticado pelo mercado, reduzindo margens na construção para aumentar a competitividade do investimento.
Na prática, o grupo captura valor em duas etapas.
Primeiro na obra.
Depois na valorização do ativo concedido.
Além disso, reduz um dos principais riscos das PPPs: a diferença entre o custo previsto na modelagem financeira e o custo efetivo da execução.
Um mercado em expansão
O lançamento do fundo acompanha um ciclo de crescimento das concessões brasileiras.
Em 2025, a B3 realizou 75 leilões de concessões e PPPs, que movimentaram R$ 243,8 bilhões em investimentos — acima dos 64 leilões e R$ 180 bilhões registrados em 2024.
Somente no primeiro trimestre deste ano foram 18 leilões, somando R$ 42,4 bilhões, crescimento superior a 40% sobre igual período do ano anterior.
Nesse ambiente, o FIP-IE amplia o acesso de investidores privados a projetos antes restritos a grandes grupos de infraestrutura.
Segundo Averbuck, o interesse também é impulsionado pela isenção tributária prevista para pessoas físicas.
A Galapagos administra mais de R$ 40 bilhões em ativos.
A Engeform Gestão já supera R$ 1 bilhão sob gestão.
O próximo passo
Segundo Luciana Improta, o fundo possui capacidade para investir em até mais três projetos.
A prioridade continuará sendo adquirir posições de controle ou participações com governança relevante.
A próxima operação em análise envolve uma PPP habitacional.
Além dos novos leilões, o fundo também observa oportunidades no mercado secundário, adquirindo participações de concessionárias que desejem vender ativos já contratados.
Esse movimento revela outra transformação importante.
As concessões deixam de ser apenas contratos administrativos.
Passam a ser ativos negociáveis no mercado de capitais.
O que isso significa para o Ceará
O Ceará oferece um retrato claro dos desafios desse novo mercado.
Em junho, a Cagece levou à B3 a maior PPP de esgotamento sanitário já estruturada no Brasil: cinco blocos, 127 municípios e cerca de R$ 7 bilhões em investimentos previstos ao longo de 28 anos.
Apenas um bloco recebeu proposta.
Os outros quatro ficaram desertos.
Poucas semanas depois, a companhia anunciou que retomará o processo com nova modelagem.
O resultado evidencia uma mudança importante.
Hoje, investidores disputam menos o tamanho dos projetos do que a qualidade das garantias e da estrutura contratual.
A comparação com a PPP da dessalinização ajuda a compreender essa diferença.
Enquanto a PPP das Escolas de São Paulo é remunerada por contraprestações fixas do poder público, a dessalinização possui remuneração vinculada ao fornecimento efetivo de água à Cagece. São estruturas contratuais distintas, voltadas a perfis diferentes de investidores.
Mais do que escolher entre modelos, o mercado avalia a previsibilidade do fluxo financeiro que cada contrato é capaz de oferecer.
Para quem estrutura PPPs, a competição deixou de ocorrer apenas entre empresas.
Ela ocorre entre modelagens capazes de convencer o mercado de que aquele fluxo permanecerá protegido por décadas.
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Durante muito tempo, infraestrutura social foi tratada apenas como despesa pública.
O que este fundo demonstra é que ela começa a ser tratada como uma nova classe de investimentos.
Quando investidores passam a selecionar PPPs pela qualidade das garantias, da governança e da previsibilidade dos contratos, a capacidade de um governo estruturar concessões deixa de ser apenas competência administrativa.
Passa a ser vantagem econômica.
Os quatro blocos sem propostas na PPP do saneamento cearense mostram que o mercado já começou a aplicar essa disciplina.
O desafio deixou de ser apenas construir projetos. Passou a ser construir contratos que o capital privado queira financiar.
O que é um FIP-IE?
Fundo de Investimento em Participações em Infraestrutura (FIP-IE) é um veículo destinado a investir em empresas responsáveis por projetos considerados prioritários para o País.
Seu principal atrativo é a isenção de Imposto de Renda sobre rendimentos e ganhos de capital para pessoas físicas, desde que atendidos os requisitos previstos na legislação.
Em contrapartida, trata-se de um fundo fechado: o investidor não pode solicitar resgate a qualquer momento. A saída ocorre no encerramento do fundo ou pela negociação das cotas no mercado secundário.
A combinação entre benefício tributário e exposição a contratos públicos de longo prazo explica o crescimento desse tipo de investimento entre investidores institucionais e pessoas físicas de alta renda.
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