MERCADOS GLOBAIS

Igor Lucena realiza análise geopolítica sobre escalada militar no Oriente Médio

Por Marcelo Cabral - Em 04/03/2026 às 1:20 AM

A escalada militar no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã já começa a produzir reflexos relevantes na economia internacional. A avaliação é do economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, que analisou os desdobramentos do conflito desencadeado no último fim de semana e seus impactos potenciais para os mercados globais – incluindo o Brasil.

Igor Lucena afirma que os desdobramentos após as ações são preocupantes                  Foto: Divulgação

“O conflito que está acontecendo naquela região já está se espalhando pelo planeta. A partir do momento em que Israel e Estados Unidos atacaram o Irã e, de maneira precisa, retiraram do poder o aiatolá Ali Khamenei e parte da Guarda Revolucionária, passamos a assistir a uma série de desdobramentos preocupantes“, disse.

Segundo o economista, o primeiro reflexo foi a ampliação das tensões regionais. O Irã passou a atingir áreas de Israel e do Kuwait, além de aeroportos nos Emirados Arabes Unidos e na Arábia Saudita. “Esses países agora se mobilizam para retaliar e reforçar sua defesa territorial e institucional, sobretudo por serem nações cada vez mais alinhadas ao Ocidente e que precisam demonstrar à sociedade e à comunidade internacional que são capazes de se proteger de ações hostis iranianas“, afirma.

Lucena observa que, embora o Irã possa alegar reação às ofensivas de Estados Unidos e Israel, a expansão do conflito para outros territórios eleva significativamente o risco geopolítico. O economista cita ainda ataques a bases britânicas em Chipre – membro da União Europeia – o que aumenta a pressão sobre países como França, Alemanha e Reino Unido para adotarem posição mais ativa.

Energia no centro da tensão

Outro efeito é visível no mercado internacional de energia. “Do ponto de vista econômico, já observamos o preço do barril de petróleo subir cerca de 10%. Esse aumento impacta fortemente o mercado global de energia. Os preços dos combustíveis nos Estados Unidos e na Europa tendem a subir rapidamente. Além disso, ao fechar o Estreito de Ormuz, o Irã compromete cerca de 20% da circulação mundial de petróleo, além de afetar significativamente a exportação de gás do Qatar. Com a redução da oferta e a demanda ainda elevada, o resultado natural é a alta do barril”, ponderou.

O Estreito de Ormuz é considerado um dos corredores energéticos mais estratégicos do mundo, por onde transita parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo da região tende a provocar volatilidade nos mercados e pressão inflacionária em diversas economias.

Fechamento do Estreito de Ormuz gera impactos na economia global              Foto: National Geographic

Reflexos no Brasil

No caso brasileiro, os impactos são mais complexos e se espalham por diferentes setores da economia. O aumento do petróleo tende a pressionar os preços domésticos de combustíveis, mesmo que parte da alta seja absorvida pela Petrobras. Isso pode gerar efeitos inflacionários indiretos em toda a cadeia produtiva, pois o país depende do transporte rodoviário para a circulação de mercadorias e serviços.

Outro ponto sensível envolve a política monetária. “Diante desse cenário, a tendência é que a autoridade monetária atue com mais cautela e adie qualquer redução nas taxas de juros. Quanto mais o conflito se prolonga, mais difícil se torna para o Banco Central (BC) realizar essa flexibilização. A alta do petróleo representa um choque externo inflacionário, e, nesse contexto, a resposta costuma ser mais conservadora e restritiva”, lembra.

Mercados sob tensão

No ambiente internacional, a tendência é de maior instabilidade financeira. A intensificação do conflito eleva o risco para rotas marítimas e operações logísticas na região, afetando exportações e encarecendo seguros de transporte. Setores como turismo, aviação, transporte marítimo e cadeias globais de suprimento já começam a sentir os efeitos.

“Quanto mais o conflito se estende, maior a volatilidade dos mercados, que devem reagir com quedas e maior busca por ativos considerados mais seguros. Nesse cenário, investidores tendem a migrar para aplicações defensivas, como o ouro“, completa Igor Lucena.

Para analistas, o desenrolar da crise no Oriente Médio será determinante não apenas para o equilíbrio geopolítico da região, mas também para o comportamento dos mercados globais nas próximas semanas, especialmente no setor energético e nas expectativas de inflação ao redor do mundo.

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