COMÉRCIO INTERNACIONAL

Tarifa dos EUA pressiona indústria calçadista, mas Ceará enfrenta novo ciclo como líder nacional em exportações

Por Fernando Benevides - Em 20/07/2026 às 1:00 AM

Tarifa adicional de 25% entra em vigor na quarta-feira (22), preserva parte relevante da pauta exportadora cearense, mas mantém os calçados entre os setores mais expostos às novas barreiras comerciais dos Estados Unidos

 

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira (22) e, embora a lista de exceções tenha reduzido o alcance da medida, a indústria calçadista permanece entre os segmentos mais expostos. Para o Ceará, maior exportador brasileiro de calçados em volume de pares, a decisão reacende o alerta sobre competitividade, empregos e diversificação de mercados.

A sobretaxa adicional de 25% foi adotada pelo governo norte-americano após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O processo analisou temas relacionados ao comércio bilateral, propriedade intelectual, comércio digital e acesso ao mercado brasileiro.

A medida prevê uma regra de transição para embarques já em curso. Mercadorias carregadas antes da entrada em vigor da nova tarifa não serão alcançadas pela sobretaxa, desde que ingressem no território americano até 29 de julho, reduzindo o impacto imediato para parte das operações já contratadas.

A versão final da medida poupou mais de 2,1 mil produtos brasileiros, preservando diversos alimentos, insumos industriais, minerais estratégicos e itens utilizados pela própria indústria americana. Ainda assim, milhares de produtos permaneceram sujeitos à nova cobrança, entre eles os calçados.

Mais do que ampliar custos, a decisão altera a posição do produto brasileiro diante de concorrentes asiáticos e latino-americanos que continuarão acessando o mercado americano em condições comerciais mais favoráveis.

O que muda para o Ceará

Embora boa parte das exportações estaduais tenha permanecido protegida pelas exceções, a permanência dos calçados entre os produtos tarifados coloca o Ceará em posição particularmente sensível.

Os Estados Unidos responderam por aproximadamente 46% das exportações cearenses em 2025, movimentando cerca de US$ 1,039 bilhão, segundo o Ipece. Embora os produtos siderúrgicos liderem a pauta exportadora em valor financeiro, a indústria calçadista sustenta uma cadeia produtiva de forte impacto sobre emprego, renda e desenvolvimento regional.

No primeiro trimestre de 2026, o Estado exportou 8,15 milhões de pares de calçados, que renderam aproximadamente US$ 42 milhões, números que reforçam sua liderança nacional nesse indicador, segundo a Abicalçados.

A tarifa adicional não significa, automaticamente, perda equivalente de receita para os fabricantes. Parte desse custo poderá ser absorvida pelos exportadores, compartilhada com importadores americanos, repassada ao consumidor final ou resultar em redução das encomendas. Ainda assim, a tendência é de perda de competitividade frente a concorrentes internacionais.

Karina Frota

Para Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da FIEC, a medida amplia os desafios para a indústria cearense.

“A tarifa adicional de 25% posiciona o Brasil em desvantagem em relação a outros fornecedores do mercado americano. Para o Ceará, o setor calçadista está entre os mais diretamente afetados. Por isso, torna-se fundamental ampliar mercados e manter o diálogo comercial entre os dois países.”

Na avaliação da Abicalçados, o cenário também exige atenção. O presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, afirma que a nova tarifa reduz significativamente a competitividade do produto brasileiro nos Estados Unidos e poderá inviabilizar operações que vinham sendo retomadas ao longo deste ano.

Um alerta que já vinha do ano passado

O endurecimento da política comercial americana já vinha sendo acompanhado pela indústria brasileira desde a primeira rodada de tarifas anunciada em 2025. Naquele momento, empresas do setor passaram a incluir o ambiente internacional entre os principais fatores de risco para as exportações.

O Portal IN mostrou, na época, que a Grendene — uma das maiores fabricantes mundiais de calçados, com unidades industriais em Sobral, Fortaleza e Crato — mantinha atenção aos possíveis desdobramentos da disputa comercial, mesmo após divulgar resultados financeiros robustos.

Um ano depois, parte daquele cenário projetado transforma-se em realidade. Com os calçados mantidos fora da lista de exceções, o Ceará volta a ocupar posição de destaque entre os estados potencialmente mais expostos aos efeitos da nova política tarifária americana.

Competitividade passa também pela diversificação

A lista de exceções mostra que a decisão americana não foi construída apenas por critérios políticos. O próprio USTR reconhece que levou em consideração fatores como disponibilidade de fornecedores alternativos, riscos de desabastecimento e impactos sobre cadeias produtivas instaladas nos Estados Unidos.

A nova configuração do comércio internacional também reforça um movimento que já vinha ganhando força entre exportadores brasileiros: reduzir a dependência de um único mercado consumidor. Para entidades empresariais, ampliar destinos de exportação deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento e passou a integrar a gestão de risco das empresas.

Nesse contexto, a infraestrutura logística do Complexo do Pecém, os acordos comerciais em negociação e a atuação conjunta entre empresas, entidades industriais e governo passam a ganhar ainda mais relevância para ampliar a presença internacional da indústria cearense e reduzir sua dependência de um único parceiro comercial.

Mais que uma disputa comercial

Ao preservar parte relevante da pauta exportadora brasileira e manter os calçados entre os produtos sujeitos à nova tarifa, os Estados Unidos redesenham parte das regras de acesso ao seu mercado.

Para o Ceará, onde a indústria calçadista responde por milhares de empregos, o episódio reforça uma mudança que tende a marcar os próximos anos: competitividade continuará sendo construída dentro das fábricas, mas dependerá cada vez mais da capacidade de conquistar novos mercados, agregar valor aos produtos e reduzir a dependência de um único destino comercial.


BOX | Tarifa dos EUA em números

25%
Tarifa adicional aplicada aos produtos brasileiros que permaneceram fora da lista de exceções.

Regra de transição
Mercadorias embarcadas antes de 22 de julho ficam isentas da sobretaxa se ingressarem nos Estados Unidos até 29 de julho.

Mais de 2,1 mil produtos
Foram preservados da nova medida comercial americana.

46%
Participação dos Estados Unidos nas exportações do Ceará em 2025.

US$ 1,039 bilhão
Valor exportado pelo Ceará ao mercado norte-americano em 2025.

8,15 milhões de pares
Calçados exportados pelo Ceará no primeiro trimestre de 2026.

US$ 42 milhões
Receita obtida com essas exportações.

1º lugar no Brasil
O Ceará lidera as exportações brasileiras de calçados em volume de pares, segundo a Abicalçados.

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