MERCADO FINANCEIRO

Selic a 15% leva o investidor a reavaliar riscos e priorizar a solidez da renda fixa

Por Marcelo Cabral - Em 26/02/2026 às 8:31 PM

A manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano – o maior patamar desde 2006 – vem redesenhando o comportamento do mercado financeiro no Brasil. Se, de um lado, o custo elevado do dinheiro inibe a abertura de capital de novas empresas na B3 e restringe o crédito, de outro, impulsiona a renda fixa ao centro das estratégias de alocação.

B3 tem registrado volume menor de abertura de capital de novas empresas                   Foto: Divulgação

Com a Selic nesse nível desde junho do ano passado, ativos pós-fixados atrelados ao CDI, como os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), voltaram a ocupar protagonismo nas carteiras. Especialmente aqueles emitidos por grandes instituições financeiras, hoje percebidos como alternativas de risco mais controlado diante de um cenário de maior cautela.

O movimento ganhou força após a liquidação extrajudicial, pelo Banco Central, de instituições como Master, Will Bank, Pleno e outras de menor porte, caso da Protocred e da BRK Financeira. O episódio alterou o humor do investidor, que passou a redobrar a atenção ao risco de crédito, sobretudo em bancos digitais ou de menor estrutura patrimonial.

Ainda assim, especialistas lembram que toda aplicação financeira envolve risco – independentemente do porte da instituição emissora – e que a análise técnica continua sendo indispensável. O Portal IN buscou a opinião de dois deles, a fim de que possam dar dicas a quem pretende migrar investimentos para outras instituições financeiras, com o objetivo de proteger a aplicação de seus recursos.

Disciplina e diversificação como pilares

Edson Queiroz IV diz que Selic alta põe renda fixa no centro da alocação

Para Edson Queiroz IV, banker de uma grande gestora de investimentos, avalia que a Selic em torno de 15% ao ano recoloca a renda fixa no centro da alocação estratégica. “Com carrego elevado e maior previsibilidade de retorno, é natural ver um aumento nas aplicações em CDBs, que voltam a ter papel relevante na construção da parcela defensiva das carteiras, especialmente em estratégias pós-fixadas atreladas ao CDI”, afirma.

Ele pondera que o porte da instituição, apenas, não deve ser critério de decisão. “Na prática, a disciplina é olhar menos para a ‘melhor taxa’ e mais para diversificação por instituição, critérios de crédito, limites por CPF/CNPJ e uso rigoroso das proteções existentes (como o FGC, dentro de regras e limites), para que o prêmio de juros não venha acompanhado de fragilidades evitáveis”, salienta.

Em um ambiente de juros elevados e seletividade crescente, o investidor sofisticado compreende que retorno e risco caminham juntos. E que, mais do que buscar a taxa mais alta, é a combinação entre análise técnica, diversificação e governança que sustenta decisões consistentes no longo prazo.

Prêmio maior não significa risco

Na mesma linha, Gustavo Cruz, sócio da Pequod Investimentos, explica que o atual ciclo de juros elevados ampliou a atratividade dos instrumentos bancários pós-fixados. “Nesse movimento, CDBs emitidos por bancos de pequeno e médio porte passaram a ganhar destaque por oferecerem prêmios mais elevados em relação às grandes instituições, justamente como estratégia de captação em um cenário mais competitivo. Contudo, essa remuneração adicional não deve ser interpretada automaticamente como sinônimo de maior risco apenas pelo porte do emissor”.

Gustavo Cruz afirma que o FGC não deve ser a única proteção

Segundo ele, o risco de crédito está presente em qualquer instituição financeira e está fundamentalmente relacionado à qualidade do balanço, ao nível de alavancagem, à liquidez e à governança, e não exclusivamente ao tamanho do banco. O debate recente também trouxe à tona o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como elemento de proteção. O mecanismo assegura até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, com limite global de R$ 1 milhão por investidor a cada quatro anos.

“Assim, basear a decisão exclusivamente na garantia do FGC pode gerar uma percepção distorcida de segurança. Uma abordagem mais consistente envolve combinar a avaliação criteriosa dos fundamentos da instituição emissora com diversificação entre emissores e prazos, buscando otimizar a relação risco-retorno do portfólio de forma estruturada”, asseverou Gustavo Cruz.

O especialista destaca ainda que, embora o FGC seja instrumento relevante de mitigação, ele não cobre valores superiores aos limites estabelecidos e o processo de ressarcimento pode demandar tempo – o que reforça a importância de uma análise prévia criteriosa.

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