ARTE SACRA
Capela Sistina restaura “Juízo Final” e revela impacto silencioso de visitantes na obra de Michelangelo
Por Suzete Nocrato - Em 17/03/2026 às 9:52 AM

O afresco “Juízo Final” foi pintado por Michelangelo entre 1536 e 1541. Foto: Alberto Pizzoli/AFP
O icônico afresco “Juízo Final”, de Michelangelo, na Capela Sistina, passa pela mais significativa intervenção em mais de três décadas, em uma operação que une ciência, conservação e sensibilidade estética. A restauração da obra-prima do século XVI, localizada no Vaticano, busca recuperar a intensidade cromática original da pintura monumental — com quase 14 metros de altura — afetada por um resíduo esbranquiçado acumulado ao longo dos anos.
Segundo os Museus do Vaticano, a substância, embora “invisível a olho nu”, havia “atenuado” as cores da composição, considerada uma das mais emblemáticas da história da arte ocidental.
Durante o processo, a Capela Sistina permanece aberta ao público, ainda que o afresco esteja temporariamente oculto por um grande andaime coberto com uma reprodução fiel da obra. A diretora dos Museus do Vaticano, Barbara Jatta, comparou a intervenção à recuperação da visão: “um pouco como uma catarata”, descreveu, ao se referir à remoção da camada que cobria “toda a superfície de 180 metros quadrados” do afresco.
O trabalho, que deve ser concluído antes da Páscoa, utiliza uma técnica delicada com água destilada aplicada sobre papel japonês para eliminar o depósito identificado como lactato de cálcio.
A origem do fenômeno revela um dado contemporâneo relevante: o impacto da presença humana sobre obras históricas. “A transpiração aumentou nos últimos anos devido às mudanças climáticas. Através da transpiração, produzimos ácido lático que se transforma em lactato de cálcio”, explicou Fabio Morresi, chefe de pesquisa científica dos Museus do Vaticano.
Diante disso, medidas já foram adotadas para limitar o número de visitantes simultâneos no espaço — que, além de ponto turístico global, é palco dos conclaves que elegem novos papas.
Pintado entre 1536 e 1541, o “Juízo Final” ocupa a parede atrás do altar da Capela Sistina e reúne 391 figuras, muitas delas nuas ou seminuas — característica que provocou controvérsia à época e levou à posterior inclusão de panos pintados sobre os corpos após a morte de Michelangelo. Parte dessas intervenções foi revertida na restauração de 1994.
A obra impressionou profundamente o Papa Paulo III, que, segundo relatos históricos, ajoelhou-se ao vê-la pela primeira vez.
O atual projeto, financiado por doadores dos Estados Unidos e inserido em uma ampla reforma iniciada em 2010, também carrega um significado pessoal para Morresi, que iniciou sua trajetória em 1988, durante a última grande intervenção. “É maravilhoso… Tem um pedaço de mim aqui dentro”, afirmou.
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