Trajetória Pictórica

Stênio Burgos apresenta “Sarapintado” em Fortaleza com obras inspiradas em memórias e paisagens

Por Jussara Beserra - Em 11/03/2026 às 11:50 AM

Stênio Burgos ao lado de obras que destacam sua linguagem cromática e expressiva.

Stênio Burgos ao lado de obras que destacam sua linguagem cromática e expressiva

Na obra de Stênio Burgos, memória e paisagem caminham juntas. A exposição “Sarapintado”, em cartaz na Galeria Leonardo Leal, em Fortaleza, apresenta uma seleção de telas que reflete a mistura de referências, afetos e experiências acumuladas em décadas de carreira. O título, que define o que é marcado por cores variadas e contrastes, resume o universo visual do artista cearense e surgiu de forma espontânea.

Os trabalhos funcionam como um diário visual, fragmentos da vida de Burgos entre o sertão nordestino e diferentes temporadas vividas no Brasil e na Europa. A mostra permanece aberta ao público até o dia 17 de abril.

“Sarapintado se refere a algo cheio de cores e pintas variadas. Quando o Leonardo Leal sugeriu o nome, eu estava na estrada voltando para meu ateliê em Amontada. Comecei a repetir a palavra e acabei incorporando o personagem definitivamente à minha história”, conta Stênio.

Pintura como matéria

Cores intensas e camadas generosas marcam a pintura de Stênio Burgos

Cores intensas e camadas generosas marcam a pintura de Stênio Burgos

Camadas grossas, tons vibrantes e volumes generosos definem o conceito das peças. Nas telas, a tinta se acumula em superfícies quase escultóricas, resultado de uma relação intensa com o material.

Essa busca ganhou força nos anos 1980, quando o artista morava em Barcelona. Em uma galeria local, ele conheceu o trabalho do sueco Bengt Lindström, famoso pelo uso denso da tinta. “Depois de ver aquelas telas, a busca pela matéria virou uma obsessão”, diz. No Brasil, o contato com a obra de Iberê Camargo consolidou seu estilo, marcado por gestos fortes e uma caligrafia própria sobre o suporte.

O sertão como origem

Apesar das viagens e das cidades onde viveu, o artista afirma que sua principal referência continua sendo o lugar onde nasceu.

Natural de Crateús, no sertão dos Inhamuns, Stênio Burgos cresceu entre a cidade e temporadas na fazenda da família, experiências que moldaram sua percepção da paisagem e permanecem presentes em sua pintura. “A paisagem do sertão, seco ou verde, é minha referência primeira e definitiva. Carrego ela comigo onde quer que esteja”, explica.

Mesmo em contextos distantes, como um inverno solitário na costa da Zeeland holandesa, o artista conta ter pintado memórias do sertão. Foi ali que criou a série Invention of Solitude, inspirada no livro homônimo de Paul Auster que lia naquele momento.

Pintar a própria vida

Stênio Burgos (5)

Pintura de Burgos transforma lembranças em matéria pictórica

Retratos, autorretratos, paisagens e cenas do cotidiano aparecem com frequência nas telas de Stênio Burgos. Amigos, lugares visitados e momentos vividos surgem nas pinturas sem roteiro prévio. “Pinto minha realidade onde quer que esteja. Vou registrando os amigos que aparecem, a paisagem do lugar e o que como ou bebo. A narração é puramente intuitiva”, afirma.

Para Leonardo Leal, galerista responsável pelo espaço que recebe a mostra, essa dimensão autobiográfica ajuda a explicar a força da obra do artista dentro da produção contemporânea. “Como disse a curadora Denise Mattar, a pintura dele tem algo que podemos chamar de ‘barroco sertanejo’. É uma linguagem muito própria, que dá identidade à produção artística do nosso Estado”, destaca.

A exposição também representa um movimento de ampliação do acesso às obras de Burgos. De acordo com o galerista, grande parte da produção do artista ainda permanece em coleções privadas. “A ideia foi apresentar esse trabalho a um público mais amplo. As obras carregam parte da identidade do Ceará e merecem circular mais”, explica.

Na avaliação de Leal, o público tem buscado justamente esse tipo de narrativa mais pessoal na arte. “Hoje existe uma busca por obras que tragam alguma conexão afetiva. A pintura do Stênio tem essa dimensão emocional e também uma carga lúdica muito forte”, afirma.

Pintura como reflexão

Para o próprio artista, pintar é também uma forma de compreender a própria existência. “A pintura é minha psicanálise. É onde sofro todos os meus males e revivo minhas alegrias e emoções. Uma busca infinita de melhorar como ser humano e ser um habitante responsável e consciente pelo bem estar do nosso Planeta. Se consigo passar energia e generosidade com meu trabalho sou um ser humano realizado na vida e na Arte”, finaliza Stênio.

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