Último adeus
Ugo di Pace morre aos 99 anos e deixa legado ligado à arquitetura, arte e vida cultural de São Paulo
Por Jussara Beserra - Em 07/08/2026 às 9:41 AM

Ugo di Pace deixa uma trajetória de mais de sete décadas dedicada à arquitetura, ao design e à arte – Foto: Reprodução/Instagram
Antes de a Alameda Gabriel Monteiro da Silva se tornar uma referência nacional em arquitetura, decoração e design, Ugo di Pace já havia escolhido o endereço para instalar seu escritório. O arquiteto e designer de interiores ítalo-brasileiro, que ajudou a acompanhar e a desenhar transformações importantes da vida cultural paulistana, morreu nesta quinta-feira (6), aos 99 anos. Nascido em Nápoles e radicado no Brasil desde 1948, construiu uma trajetória de mais de sete décadas marcada pela arquitetura, pelo design, pelo colecionismo e pela proximidade com a arte.
Di Pace foi o primeiro arquiteto a instalar escritório na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, ainda nos anos 1970, antecipando a vocação que faria da via um dos principais endereços brasileiros do setor. Ali, manteve também o Studio 689, espaço que reuniu escritório, galeria e antiquário e recebeu trabalhos de artistas como Tunga, Frans Krajcberg e Wesley Duke Lee.
A arte atravessou também suas relações profissionais. Amigo e parceiro de Pietro Maria Bardi, um dos responsáveis pela criação do Masp, Di Pace participou de iniciativas ligadas ao mercado de arte em São Paulo e Roma durante os anos 1960. Essa proximidade ajudou a formar uma linguagem na qual pinturas, esculturas e antiguidades não apareciam como complementos dos interiores, mas como elementos capazes de organizar os próprios ambientes.
Da arquitetura à noite paulistana
Essa visão chegou também à vida social da cidade. Di Pace foi sócio e participou da concepção da The Gallery, casa noturna da Rua Haddock Lobo que se tornou um dos endereços conhecidos da noite paulistana nos anos 1980. Arte, antiguidades e vida social dividiam o mesmo cenário, antecipando uma mistura de linguagens que acompanharia boa parte de sua produção.
Sua atuação ultrapassou São Paulo, com projetos realizados em diferentes cidades do Brasil e do exterior. Ainda assim, foi na capital paulista que deixou alguns dos sinais mais claros de sua influência, especialmente na aproximação entre arquitetura, interiores, arte e comportamento.
A longevidade criativa permaneceu até os últimos anos. Em 2025, aos 98 anos, Di Pace lançou seu quinto livro, “Ugo di Pace: Obra de Arte — Protagonista da Minha Vida e dos Meus Trabalhos”, acompanhando pessoalmente a seleção de imagens e a construção editorial da publicação.
O livro acabou se tornando um dos registros finais de uma trajetória iniciada na Itália do pós-guerra e desenvolvida durante décadas no Brasil. Ugo di Pace deixa como legado não apenas os ambientes que projetou, mas uma maneira particular de enxergar os espaços: lugares onde arquitetura e arte deveriam coexistir como parte da vida cotidiana.
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