Memória Viva

Depois do Carnaval, a festa continua — agora dentro do museu

Por Julia Fernandes Fraga - Em 01/03/2026 às 4:10 AM

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Obra Papangu da Peroba 1, de Nicolas Gondim. Fotos: Julia Fraga/Portal IN

No último sábado de fevereiro, o Portal IN aceitou o convite para visitar, em formato mediado, a exposição Bloco do Prazer, em cartaz até maio no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE).

O timing não poderia ser mais preciso.

Ainda sob o eco dos tambores da folia, atravessar as salas do MAC foi como perceber que a festa não termina na Quarta-Feira de Cinzas — ela apenas muda de linguagem.

Fomos recebidos com a habitual competência da AD2M Comunicação e o amplo conhecimento das historiadoras do Museu, sendo conduzidos por uma narrativa que, embora pensada para ser vista de cima para baixo, me pareceu pedir o percurso inverso. 

Começar pelo chão.

Começar pelo chão

Pelos maracatusPatrimônio Cultural de Fortaleza — pelos corpos, pelos cortejos, pelos Papangus da Peroba de Nicolas Gondim, pela pulsação que nasce na rua antes de alcançar a parede branca (vermelhas no caso do MAC).

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Representação do reisado cearense exposto na “Bloco do Prazer”

Talvez seja esse o gesto mais potente da mostra: lembrar que o museu não antecede a festa — ele a escuta.

O Ceará como linguagem

Durante a visita, cruzamos com locais curiosos e uma família de turistas de Santa Catarina. Em silêncio atento, eles observavam aquilo que, para nós, é cotidiano e estrutura simbólica: o rito, a máscara, o som, o movimento.

Ali, o Cearáde Fausto Nilo – não aparecia como tema, mas como linguagem. 

A gerente do MAC-CE, Aretha Gallego, e a diretora-presidente do Instituto Dragão do Mar (IDM), Raquel Gadelha, reforçaram algo que se materializa ao longo do percurso:

“O Dragão do Mar está vivo e forte — e precisamos divulgar isso. Toda essa programação está disponível para fortalezenses e turistas”. 

Nas trincheiras da alegria

A mostra, viabilizada por mecanismos como a Lei Rouanet — uma política essencial para a sustentação da cultura — dialoga com esse espírito de permanência. Não por acaso, a campanha institucional Nas Trincheiras da Alegria ressoa ao longo da experiência.

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Aretha Gallego detalha o trabalho de curadoria e montagem

Entre obras históricas e contemporâneas, surgem presenças que expandem o campo da festa para além do visível:

> as fotografias do mineiro Eustáquio Neves, que levará o Brasil à próxima Bienal de Veneza;

> a sequência O casamento de Antônio, de Paulo Nazareth; 

> trabalhos de Raimundo Cela;

 > produções de uma nova geração cearense que traz respiro e esperança;

> e até ecos do Ato Institucional nº5 (AI-5), atravessando o espaço expositivo como lembrete de uma época de desprazer para o Brasil.

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Raquel Gadelha interagindo com a obra de Hélio Oiticica

Quando o corpo entra

Até que, ao final — ou ao ápice — surge o magnetismo inevitável de Gal Costa.

E, logo depois, Hélio Oiticica com a sua “Gal”.

A obra interativa nos convida a abandonar o “corpo de museu” — essa matéria disciplinada que observa à distância — e a reaprender a experiência como participação.

Talvez seja essa a verdadeira virada proposta por Bloco do Prazer: a de que a festa não é apenas memória, mas método. 

Confira mais registros da exposição na galeria: 

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