Guerra digital
Inteligência artificial redefine estratégias militares e acelera decisões de guerra
Por Suzete Nocrato - Em 05/03/2026 às 9:43 AM

Inteligência Artificial na guerra dos Estados Unidos, Israel, Irã. Foto: Reprodução/ TI Especialistas
Três anos após a popularização da inteligência artificial generativa, a tecnologia ultrapassou os limites corporativos e acadêmicos e chegou definitivamente aos campos de batalha contemporâneos. O atual conflito no Oriente Médio tende a ficar marcado como o primeiro grande episódio militar em que grandes modelos de linguagem (LLM) — a mesma base tecnológica utilizada por chatbots comerciais como o ChatGPT — desempenham papel relevante em operações estratégicas.
Especialistas afirmam que o impacto da IA na guerra moderna não se limita ao imaginário popular de armamentos automatizados. Na prática, a tecnologia tem sido empregada sobretudo para processamento de dados, análise de inteligência e apoio à tomada de decisão militar. “O grande conjunto do uso da IA está nos processos de auxílio à tomada de decisão e, evidentemente, coleta de dados e de informação”, explica em entrevista ao GLOBO Alcides Peron, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Na prática, a IA generativa encurtou drasticamente o intervalo entre coleta de informações estratégicas e execução de ataques militares. Essa aceleração tecnológica ficou evidente em recentes operações envolvendo o Irã. Um exemplo é chatbot Claude, desenvolvido pela empresa Anthropic. Apesar de ter sido barrado pelo presidente Donald Trump de contratos com o governo americano na sexta-feira, 27/2, ele, teria sido utilizado horas depois durante a Operação Fúria Épica, segundo informações do site Axios.
Durante o ataque que resultou na morte do Aiatolá Ali Khamenei, os dados utilizados pelas forças de inteligência foram altamente específicos. De acordo com o Financial Times, todas as câmeras de trânsito de Teerã teriam sido hackeadas, transmitindo imagens diretamente para servidores em Tel Aviv e no sul de Israel. O fluxo contínuo de imagens permitiu identificar com precisão a localização do líder supremo iraniano.
Guerra Cibernética
Nos bastidores da guerra cibernética, a Unidade 8200, principal divisão de inteligência de sinais e cibernética das Forças de Defesa de Israel (IDF), já vinha utilizando tecnologias avançadas de análise de dados e inteligência artificial.
Um dos sistemas utilizados é o Lavender, plataforma criada para realizar coleta massiva de metadados de celulares e redes sociais com o objetivo de identificar padrões comportamentais suspeitos. Quando a IA detecta um comportamento classificado como “suspeito”, o sistema pode sugerir ataques quase imediatos.
Além do Lavender, as forças israelenses utilizam desde 2021 outro sistema baseado em inteligência artificial militar, chamado Habsora.
Diferentemente da plataforma voltada à identificação de pessoas, o Habsora é utilizado para mapear edifícios e estruturas consideradas de interesse estratégico. O sistema foi empregado, por exemplo, na operação de 2024 que explodiu pagers, matando membros do Hezbollah.
A expansão da inteligência artificial aplicada à defesa sinaliza uma transformação estrutural na forma como conflitos são planejados e executados. Em vez de depender exclusivamente de decisões humanas, algoritmos passam a influenciar diretamente o ritmo e a precisão das operações militares.
Nesse novo cenário, dados, algoritmos e poder computacional tornam-se tão estratégicos quanto armamentos convencionais — redefinindo o equilíbrio entre tecnologia, geopolítica e segurança internacional.
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