523 ANOS DE HISTÓRIA
Fernando de Noronha ganha novo olhar com projeto sobre o mundo subaquático
Por Marcelo Cabral - Em 09/08/2026 às 12:10 PM

Pedras Secas é um dos principais pontos de mergulho de Fernando de Noronha, onde existem formações rochosas e muita vida marinha no seu entorno Fotos: Fabi Fregonesi e Raphael Gatti
Às vésperas de completar 523 anos, nesta segunda-feira (10), o Arquipélago de Fernando de Noronha revela uma nova dimensão de sua beleza. Muito além das praias, falésias e paisagens que consagraram o arquipélago como um dos destinos mais desejados do planeta, um projeto fotográfico inédito apresenta ao público a imponência de um território que permanece invisível para a maioria dos visitantes: o universo subaquático.
O projeto Panorâmicas de Noronha propõe uma nova forma de enxergar o arquipélago ao transformar registros de mergulho em grandes composições panorâmicas. A técnica reúne múltiplas fotografias – de três a mais de 24 capturas – para criar imagens capazes de reproduzir com maior fidelidade a escala, a riqueza e a complexidade das formações submersas.

Cabeço da Sapata é uma formação vulcânica bastante elevada da região
Idealizado pela fotógrafa subaquática Fabi Fregonesi, primeira brasileira a conquistar pódio no Underwater Photographer of the Year, em parceria com o mergulhador e fotógrafo subaquático Raphael Gatti, o projeto percorreu 16 pontos de mergulho durante uma expedição de três semanas pela ilha conhecida somo a Esmeralda do Atlântico.
Entre os locais registrados estão Pedras Secas I e II, Cabeço da Sapata, Corveta V-17 e Trinta Réis, áreas reconhecidas pela biodiversidade e pela imponência das formações naturais. “Esse projeto nasce de uma inquietação: a sensação de que o que a gente vê no mergulho em Noronha raramente é possível ser traduzido em imagem. A panorâmica foi a forma que encontramos de respeitar a escala do oceano e registrar esse território como ele realmente é: grandioso, complexo e vivo”, explica Fabi Fregonesi.
Na fotografia subaquática, a técnica ganha ainda mais relevância. Como a presença de água entre a câmera e o objeto compromete a nitidez, os registros são feitos em proximidade e, posteriormente, unidos em uma única composição, preservando detalhes, texturas e profundidade.
Nova escala para os cartões-postais
Entre os registros mais emblemáticos está a Corveta Ipiranga (V-17), navio de guerra naufragado em 1983 após uma colisão com o Cabeço da Sapata. Localizado a aproximadamente 62 metros de profundidade, o naufrágio ganhou uma nova interpretação visual a partir da união de três fotografias subaquáticas. Até então conhecido por imagens isoladas, o local passou a ser apresentado em uma composição contínua, capaz de revelar sua dimensão real.

Corveta Ipiranga afundou ao bater na Cabeça da Sapata e está a cerca de 62 metros de profundidade
O mergulhador presente nas imagens também exerce papel fundamental: funciona como referência de escala e permite ao observador compreender a grandiosidade dos ambientes registrados. “Se não usássemos um mergulhador para compor a imagem, a escala do local se perderia e as pessoas não conseguiriam ter noção do tamanho real daquele ambiente”, explica Fabi.
A captura da Corveta exigiu precisão absoluta. O mergulho completo durou cerca de 65 minutos, mas apenas 15 a 17 minutos foram destinados ao registro fotográfico do naufrágio, respeitando os protocolos de segurança necessários para a profundidade. “Não existia margem para erro. A segurança vinha sempre em primeiro lugar, mas isso também exigia muita precisão. Precisávamos ser extremamente assertivos nas imagens que queríamos capturar”, destaca Raphael Gatti.
Uma Noronha ainda desconhecida
Reconhecida como Patrimônio Mundial da Unesco e considerada um dos principais territórios de conservação marinha do planeta, Fernando de Noronha costuma ser admirada pelo que revela acima da linha d’água. O Panorâmicas de Noronha amplia essa percepção ao apresentar um arquipélago monumental também sob o oceano, reforçando o valor ambiental e simbólico desses ambientes.
Mais do que um registro artístico, o projeto busca estimular uma relação mais profunda entre pessoas e natureza. “Quando mostramos a escala e a beleza desses ambientes, a relação muda. Não é apenas uma foto de um ponto de mergulho, mas um território grandioso que precisa ser preservado. A fotografia tem o poder de aproximar e gerar cuidado”, afirma Fabi.
Realizado de forma independente, o projeto contou com apoio operacional da operadora de mergulho Águas Claras, responsável pela logística da expedição. Para Raphael Gatti, o trabalho representa apenas o início de uma jornada. “Saímos de Noronha com a sensação de que esse é só o começo. Ainda existe muito a ser revelado debaixo d’água”.

Macaxeira é outro ponto de mergulho muito apreciado no entorno do arquipélago pernambucano
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