Eleições 2026

Por que as pesquisas discordam sobre a eleição no Ceará

Por Fernando Benevides - Em 13/08/2026 às 8:18 AM

Dois institutos ouviram o eleitorado cearense em um intervalo de duas semanas. Os dois apontaram Ciro Gomes à frente de Elmano de Freitas, mas desenharam vantagens muito diferentes. Método, período de campo e mudanças na própria eleição ajudam a entender por que os números não devem ser lidos como se viessem da mesma régua.

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Ciro x Elmano 

A AtlasIntel divulgou nesta quarta-feira (12) a segunda rodada de sua pesquisa no Ceará. Ciro Gomes (PSDB) aparece com 49,3% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno, contra 44,6% do governador Elmano de Freitas (PT).

A diferença é de 4,7 pontos percentuais.

Duas semanas antes, a Genial/Quaest havia medido a mesma disputa. Ciro aparecia com 43% e Elmano com 33%.

Dez pontos de diferença.

Nenhum dos dois levantamentos diverge sobre quem aparece numericamente à frente. O que muda — e muito — é o tamanho da vantagem.

E o tamanho importa.

Uma eleição em que os dois principais candidatos aparecem separados por menos de cinco pontos produz uma leitura política diferente daquela em que a distância chega a dez.

Qual das duas fotografias descreve melhor o Ceará?

A resposta mais rigorosa é: não sabemos.

Parte da diferença pode estar na política. Parte está no método. Separar uma coisa da outra é justamente o que uma pesquisa isolada não permite.

O mesmo eleitorado, duas lentes

AtlasIntel e Quaest pretendem medir o mesmo universo: os eleitores do Ceará.

Mas chegam até eles de maneiras diferentes.

A Quaest realizou 1.002 entrevistas presenciais e domiciliares entre 24 e 28 de julho. O plano amostral considera características como sexo, idade, renda e escolaridade, e os entrevistadores vão aos domicílios selecionados para aplicar o questionário.

A AtlasIntel ouviu 1.774 eleitores entre 6 e 11 de agosto utilizando recrutamento digital. Respondentes são convidados durante sua navegação na internet e preenchem o questionário de forma autoadministrada. A empresa utiliza procedimentos estatísticos de pós-estratificação para ajustar a composição final da amostra.

Cada desenho resolve alguns problemas e cria outros.

A entrevista autoadministrada reduz a presença de um entrevistador entre a pergunta e a resposta. Isso pode ser relevante quando o eleitor responde sobre temas politicamente sensíveis.

A pesquisa domiciliar, por sua vez, não depende do comportamento de navegação online para encontrar o entrevistado.

Métodos digitais precisam lidar com diferenças de acesso e de comportamento na internet relacionadas a renda, idade, escolaridade e território. A Atlas afirma utilizar ponderação e pós-estratificação para corrigir desequilíbrios da amostra.

Pesquisas presenciais também dependem de escolhas metodológicas: desenho da amostra, seleção dos domicílios, taxa de resposta, treinamento dos entrevistadores e ponderação.

Não existe método sem hipótese.

Existe método mais ou menos adequado para responder a uma determinada pergunta — e transparência suficiente para que o leitor saiba como aquele número foi produzido.

Entre uma pesquisa e outra, a eleição também mudou

Há outra razão para evitar uma comparação direta.

A Quaest esteve em campo entre 24 e 28 de julho.

A Atlas ouviu os eleitores entre 6 e 11 de agosto.

Nesse intervalo, o cenário eleitoral mudou.

As convenções partidárias foram concluídas. Eduardo Girão deixou a disputa pelo Governo para integrar, como vice, a chapa presidencial de Romeu Zema. As candidaturas majoritárias ganharam configuração mais definida.

E, no dia 9 de agosto, Ciro e Elmano realizaram o primeiro confronto direto da campanha, no debate promovido pela Band Ceará.

A coleta da Atlas atravessou esse debate.

Isso não permite dizer que qualquer mudança tenha sido provocada por ele — parte dos entrevistados respondeu antes e parte depois. Também não permite atribuir a diferença em relação à Quaest à saída de Girão ou a qualquer outro acontecimento isolado.

Permite apenas uma conclusão mais prudente:

Atlas e Quaest não mediram exatamente o mesmo momento político.

Por isso, método e calendário precisam ser lidos juntos.

Um número, diferentes manchetes

Há ainda uma terceira camada de confusão.

Uma pesquisa pode gerar números diferentes dependendo da base utilizada para apresentá-los.

No resultado estimulado divulgado pela Atlas, Ciro aparece com 49,3% e Elmano com 44,6%.

Quando brancos, nulos e indecisos são excluídos e os percentuais restantes são recalculados sobre uma base semelhante à de votos válidos, os números dos candidatos aumentam. Não surgiu uma nova pesquisa. Mudou o denominador da conta.

A margem de erro acrescenta outra fonte frequente de interpretação equivocada.

Ela não deve ser usada simplesmente retirando dois pontos de um candidato, acrescentando dois ao outro e apresentando o resultado como a “vantagem mínima” entre eles.

A incerteza estatística da diferença entre duas estimativas produzidas pela mesma amostra é mais complexa do que essa subtração.

É possível, portanto, transformar um único levantamento em manchetes aparentemente contraditórias sem alterar uma linha dos dados originais.

Para o leitor, a regra mais segura é simples:

compare números calculados sobre a mesma base e verifique sempre como o instituto apresentou originalmente o resultado.

O que as séries mostram

Há uma comparação mais informativa do que colocar Atlas contra Quaest.

É colocar Atlas contra Atlas e Quaest contra Quaest.

Na rodada anterior da Atlas, realizada em junho, Ciro tinha 45,8% e Elmano, 44,8%. A diferença era de apenas um ponto.

Agora, Ciro aparece com 49,3% e Elmano com 44,6%.

Dentro da série da Atlas, portanto, Ciro avançou 3,5 pontos, enquanto Elmano permaneceu praticamente estável.

A Quaest conta outra história dentro de sua própria série.

Na rodada de julho, Ciro apareceu com 43% e Elmano com 33%. Na simulação de segundo turno, o resultado foi de 48% a 35%. Segundo a própria pesquisa, as variações em relação à rodada anterior, realizada em abril, permaneceram dentro da margem de erro.

É aí que começa a informação sobre tendência.

Quando o método permanece essencialmente o mesmo e um instituto volta ao mesmo eleitorado em momentos diferentes, a comparação ganha consistência.

Não elimina a margem de erro.

Mas reduz uma variável importante: a troca da régua.

Histórico e controvérsia

A metodologia digital da AtlasIntel tornou o instituto uma referência relevante no mercado de pesquisas e também objeto de debate entre especialistas.

Isso exige duas cautelas opostas.

A primeira é não desqualificar um levantamento apenas porque ele produz resultado diferente de outro instituto.

A segunda é não transformar histórico de acertos em garantia de precisão para uma eleição futura.

Em junho deste ano, uma pesquisa presidencial específica da AtlasIntel teve sua divulgação suspensa liminarmente pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, diante de suspeitas de indução do entrevistado em determinadas perguntas do questionário.

A decisão foi cautelar e tratou daquele levantamento específico. O julgamento pelo Plenário chegou a ser iniciado e foi interrompido por pedido de vista.

Portanto, o episódio não autoriza concluir que a Justiça Eleitoral tenha invalidado a metodologia utilizada pela Atlas em todas as suas pesquisas.

É justamente essa distinção que precisa valer para qualquer instituto.

Método, questionário, amostra e período de campo devem ser analisados em cada levantamento.

Quem contratou e como foi feita

O levantamento AtlasIntel no Ceará foi contratado pela Focus Poder. Foram realizadas 1.774 entrevistas entre 6 e 11 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro na Justiça Eleitoral é CE-02777/2026.

A pesquisa Genial/Quaest foi contratada pelo Banco Genial. Foram ouvidos presencialmente 1.002 eleitores entre 24 e 28 de julho, com margem de erro de três pontos e nível de confiança de 95%. O registro é CE-09277/2026.

Conhecer contratante, período de campo, tamanho da amostra, questionário e metodologia não é detalhe burocrático.

É parte da leitura da pesquisa.

Leitura IN

A campanha nas ruas começa oficialmente no dia 16.

O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão entra no ar em 28 de agosto.

Daqui em diante, pesquisas serão divulgadas com frequência crescente — e com elas aumentará a tentação de transformar cada rodada em placar.

Pesquisa não é previsão.

É fotografia.

E cada instituto usa uma lente.

Atlas e Quaest estão dizendo algo importante sobre a eleição cearense: Ciro aparece numericamente à frente de Elmano nos dois levantamentos.

A distância entre eles, porém, ainda não tem uma resposta única.

Pode refletir diferenças de método. Pode refletir momentos distintos da campanha. Pode carregar variação amostral. Provavelmente reúne mais de um desses fatores.

Por isso, a pergunta mais útil não é qual instituto está certo.

É outra:

o que cada instituto está mostrando quando comparado consigo mesmo?

Foi assim que a Atlas registrou movimento entre junho e agosto. É assim que a Quaest constrói sua série entre abril e julho.

Quando novas rodadas chegarem, será essa comparação que permitirá identificar se existe uma tendência consistente — e se institutos diferentes começam ou não a convergir sobre ela.

Até lá, quatro pontos e dez pontos não são duas respostas para a mesma pergunta.

São duas fotografias, produzidas por lentes diferentes e em momentos diferentes, de uma eleição que ainda está começando.


Dados: AtlasIntel/Focus Poder — registro TSE CE-02777/2026, 1.774 entrevistas, realizadas entre 6 e 11 de agosto — e Genial/Quaest — registro TSE CE-09277/2026, 1.002 entrevistas presenciais domiciliares, realizadas entre 24 e 28 de julho.

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