A FORÇA DOS PREFEITOS
Cid conta prefeitos. Ciro conta 2006
Por Fernando Benevides - Em 17/08/2026 às 9:09 PM
O senador afirma ao Portal IN que a oposição não tem “nem oito prefeitos” no Ceará. O adversário responde com a eleição em que o próprio Cid venceu tendo, segundo sua versão, apenas seis. E o Datafolha, por enquanto, mostra vantagem para quem tem menos estrutura municipal.

Cid Gomes e Ciro Gomes Foto: Portal IN
A campanha ao Governo do Ceará começou com os dois campos disputando o mesmo território — e contando de maneiras opostas.
Em conversa com o Portal IN durante o aniversário de Patriolino Dias, presidente do Sinduscon-CE, no sábado, 8 de agosto, em Fortaleza, o senador Cid Gomes (PSB) — candidato à reeleição e um dos principais articuladores municipais da chapa governista — foi direto ao avaliar a força da oposição nas prefeituras: “Eles não têm nem oito prefeitos.”
A conversa política marcou a passagem do senador pelo encontro. Na cobertura publicada pelo Portal IN no dia seguinte, a chegada de Cid já aparecia como um dos momentos que levaram as eleições de 2026 para as rodas da tarde.
O que se sabe da contagem
Em julho, seis prefeitos apareciam publicamente ao lado de Ciro Gomes (PSDB): os gestores de Juazeiro do Norte, Iguatu, Massapê, Parambu, Acarape e Redenção. Dois deles — Acarape e Redenção — pertencem ao PSB, partido de Cid, um sinal de que filiação partidária e apoio eleitoral não caminham necessariamente juntos.
A conta já vinha sendo usada pelo governismo. Em maio, Camilo Santana (PT) afirmou que Ciro poderia ter cinco prefeitos e que os demais estariam na base. Meses depois, a declaração de Cid mantém a oposição na mesma ordem de grandeza.
Mas Ciro não contesta apenas a aritmética. Contesta a premissa.
Ciro responde com a história de Cid
Desde a pré-campanha, Ciro recorre a episódios da história política cearense para sustentar que uma ampla maioria de prefeitos não garante vitória. Cita 1986, quando Tasso Jereissati derrotou Adauto Bezerra apesar da estrutura municipal atribuída ao adversário, e principalmente 2006.
Segundo Ciro, Cid chegou àquela eleição apoiado por apenas seis prefeitos, diante de 178 ligados ao então governador Lúcio Alcântara. Os números são apresentados pelo candidato e não devem ser tratados como uma recontagem histórica independente.
A ironia política permanece: o caso que Ciro usa para argumentar que prefeito não transfere automaticamente voto é a vitória do próprio irmão. Vinte anos depois, Cid faz a contagem do outro lado do balcão.
Em junho, Ciro chegou a reconhecer a dependência das administrações municipais em relação aos governos estadual e federal e disse não exigir exposição dos gestores. Resumiu o que gostaria de receber deles: “um vereadorzinho” para segurar sua bandeira.
É a estratégia de quem tem poucos prefeitos declarados e tenta chegar à estrutura abaixo deles — e, sobretudo, ao eleitor.
O mapa mudou depois das convenções
Em junho, levantamento publicado pelo PontoPoder apontava que partidos então integrantes do arco favorável a Elmano administravam 172 das 184 prefeituras cearenses.
A fotografia, porém, é anterior às convenções.
PL, União Brasil e PP terminaram no campo de Ciro. No caso de União Brasil e Progressistas, as direções estaduais defenderam apoio a Elmano, enquanto a Federação União Progressista acabou integrada à coligação Unir para Mudar, formada em torno da candidatura de Ciro. O conflito chegou à Justiça Eleitoral.
O episódio tornou ainda menos segura qualquer conta baseada exclusivamente nas siglas. Partido e apoio municipal deixaram de ser necessariamente equivalentes, e não há uma recontagem pública consolidada, prefeito por prefeito, depois das convenções.
A pergunta passou a ser outra: o prefeito cujo partido mudou de lado seguirá a nova composição partidária ou permanecerá politicamente ligado ao governismo?
A pesquisa ainda não vê a máquina
O Datafolha divulgado em 13 de agosto colocou Ciro com 52% das intenções de voto, contra 33% de Elmano. Foram ouvidos 1.022 eleitores em 51 municípios, entre 10 e 12 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais.
O recorte territorial é particularmente relevante: em Fortaleza e Região Metropolitana, Ciro registra 51% contra 31%; no Interior, 52% contra 34%. Considerada a menor precisão das subamostras, não há base para tratar a diferença de dois pontos entre os territórios como mudança de cenário.
Até aqui, portanto, a predominância municipal do governismo não aparece convertida em vantagem eleitoral no Interior.
A história recente mostra, porém, o tamanho da estrutura territorial que Elmano já conseguiu transformar em votos. Em 2022, ele venceu em 178 dos 184 municípios cearenses e em nove dos dez maiores colégios eleitorais do Estado. Fortaleza foi a exceção entre os dez maiores.
Agora, a fotografia inicial é outra.
Há ainda uma ressalva importante: o Datafolha foi realizado entre 10 e 12 de agosto. A campanha oficial começou no domingo, 16. A rede municipal terá, portanto, as próximas semanas para mostrar quanto consegue alterar essa fotografia.
Leitura IN
Cid e Ciro estão medindo forças diferentes.
Ciro usa 2006 para sustentar que prefeito não transfere voto automaticamente. Cid aposta na capilaridade que gestores, vereadores e lideranças oferecem a uma campanha estadual. A eleição passada mostrou a força dessa estrutura; o Datafolha de agora mostra que ela ainda não se converteu em vantagem para Elmano.
É justamente aí que está um dos grandes testes de 2026.
Ciro começa a campanha liderando também no Interior. O governismo começa com uma rede municipal muito mais extensa e precisa transformá-la em voto.
Porque a pergunta decisiva não é quantos prefeitos estão com cada candidato.
É quantos eleitores esses prefeitos ainda conseguem levar consigo.
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