MODELO ECONÔMICO
Em Cascavel, Ciro critica fechamento de fábricas de calçados e promete apoio a pequenos e médios empreendedores
Por Marcelo Cabral - Em 22/08/2026 às 7:48 PM
O candidato Ciro Gomes (PSDB) está transformando os problemas recentes da indústria em argumento de campanha ao Governo do Ceará. Neste sábado (22), em Cascavel, ele voltou a associar fechamento de fábricas, perda de mercados externos e empregos ao que considera uma deterioração do modelo econômico do Estado.

Ciro Gomes questiona o modelo econômico que o Ceará vem adotando Fotos: Divulgação
Parte do diagnóstico encontra respaldo em acontecimentos recentes. Em um intervalo de 35 dias, cinco unidades calçadistas encerraram atividades em Pentecoste e outra fechou em Brejo Santo, atingindo 923 postos de trabalho. Os seis fechamentos, porém, têm uma origem empresarial comum: as operações pertenciam ao mesmo grupo. O empresário responsável atribuiu as dificuldades à situação financeira acumulada após a pandemia e ao encerramento da Paquetá, para a qual as empresas prestavam serviços.
O episódio, portanto, é suficientemente relevante para colocar pressão sobre a indústria e o emprego no Interior, mas não permite, isoladamente, concluir que o Ceará atravesse um processo generalizado de desindustrialização. É justamente nessa fronteira entre fato econômico e interpretação política que Ciro começa a construir uma das linhas de sua campanha.
Do fechamento de fábricas à disputa pelo modelo
Durante visita à tradicional feira livre de Cascavel, na Região Metropolitana de Fortaleza, Ciro afirmou que cinco fábricas que ajudou a levar para Pentecoste fecharam, além de uma unidade em Brejo Santo. “Já fecharam 100 fábricas”, declarou.
O candidato não detalhou, durante a agenda, o período nem o universo empresarial utilizado para chegar a esse número. Levantamentos disponíveis confirmam os seis fechamentos recentes citados em Pentecoste e Brejo Santo, mas não permitem validar a dimensão mais ampla apresentada por Ciro. Mais do que a quantidade, porém, a escolha dos exemplos revela o movimento político.
Ao citar fábricas que afirma ter ajudado a levar para municípios do Interior, Ciro transforma o ciclo de industrialização e descentralização produtiva do Ceará em argumento eleitoral. A mensagem estabelece uma comparação entre o Estado que buscava empresas e empregos industriais para fora da Capital e o Ceará que, segundo seu diagnóstico, estaria perdendo parte dessa capacidade.
Calçados mostram crise real, mas quadro complexo
É no setor calçadista que o argumento encontra hoje sua evidência econômica mais forte. Ciro afirmou em Cascavel que, de cada 100 pares de calçados anteriormente exportados pelo Ceará para a Argentina, apenas 24 continuariam sendo vendidos ao país ‘hermano’.
Os números mais recentes mostram uma retração ainda maior. Entre janeiro e julho de 2026, o Ceará exportou cerca de 176 mil pares para a Argentina, contra 1,139 milhão no mesmo período de 2025 – uma queda de 84,5%.
Na comparação, restaram aproximadamente 15 pares para cada 100 exportados um ano antes. A Argentina, porém, representa atualmente apenas 3,2% das exportações internacionais do setor cearense. Outros destinos, como Colômbia, Equador, Peru e Canadá, apresentaram crescimento.
O problema também não se limita ao mercado argentino. No conjunto dos destinos, as exportações cearenses de calçados recuaram 19,4% em quantidade e 28% em valor nos primeiros sete meses deste ano. É um sinal concreto de pressão sobre um dos segmentos industriais mais importantes do Estado.

Setor calçadista é relevante para a geração de empregos e renda em diversos municípios cearenses
O Ceará que perde fábricas lidera a produção
Os mesmos números que dão substância a parte do alerta de Ciro impõem limites à conclusão de que a indústria cearense esteja em retração. Em 2025, o Ceará produziu 206,8 milhões de pares de calçados e respondeu por 24,4% da produção brasileira, terminando o ano como maior produtor do País. Também liderou as exportações nacionais do setor em quantidade, com 31,4% dos pares vendidos pelo Brasil ao exterior.
Os indicadores gerais caminham na mesma direção. O PIB industrial cearense cresceu 1,99% em 2025, enquanto a indústria de transformação avançou 1,46%. A fotografia, portanto, é mais complexa do que as duas narrativas isoladamente sugerem.
O Ceará terminou 2025 como potência calçadista nacional e, poucos meses depois, registrou seis fechamentos ligados ao mesmo grupo empresarial, 923 postos atingidos e forte retração das exportações do setor. Os dados não comprovam uma desindustrialização no Estado, mas mostram focos concretos de deterioração capazes de transformar indústria e emprego em temas relevantes da campanha.
Governo tenta recompor empregos em Pentecoste
Os fechamentos também provocaram reação do Governo do Estado. Após o encerramento das operações em Pentecoste, o governador Elmano de Freitas (PT) anunciou negociações para atrair uma nova empresa ao município. A fabricante de calçados Dilly apareceu entre as interessadas em ocupar parte do espaço deixado pelas unidades encerradas.
O mesmo fato passa, assim, a alimentar duas leituras políticas. Ciro o apresenta como sinal de perda de capacidade do modelo industrial. O governo busca responder com atração de investimentos e recomposição dos empregos.
Essa divergência tende a levar para a campanha uma discussão maior do que a contabilidade de fábricas abertas ou fechadas. Qual política industrial consegue sustentar empregos no Interior quando incentivos fiscais, cadeias globais, custos de produção e mercados consumidores estão mudando.
Pequeno empresário entra na estratégia
Em Cascavel, Ciro também apresentou uma proposta voltada aos pequenos e médios empresários. Caso seja eleito, afirmou que pretende criar uma estrutura de assessoramento na Capital e em diferentes regiões do Interior para auxiliar empresas durante a transição da reforma tributária. Segundo o candidato, o serviço deverá atuar na simplificação tributária, formalização de negócios, capacitação gerencial e orientação sobre comércio exterior.

Grandes plantas industriais dividirão espaço com pequenas e médias empresas no interior do Estado
A proposta amplia o desenho econômico que Ciro começa a apresentar na campanha. Em vez de depender apenas da atração de grandes plantas industriais – característica importante do ciclo de interiorização das décadas anteriores -, o candidato sinaliza que pequenos e médios negócios também deverão integrar sua estratégia de desenvolvimento.
A indústria entra na eleição
A passagem por Cascavel deixa, portanto, algo maior do que uma agenda de campanha. Ciro encontrou nos fechamentos recentes e na perda de mercados uma base concreta para questionar o desempenho industrial do Ceará. Mas os mesmos dados mostram um Estado que continua liderando segmentos importantes da indústria brasileira e que registrou crescimento industrial no último ano.
A disputa começa justamente aí. Mais do que saber se uma fábrica fechou ou outra chegará para substituí-la, a eleição começa a discutir qual Ceará industrial está emergindo dessa transformação – e quem tem um projeto capaz de produzir o próximo ciclo de investimentos e empregos no Estado.
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