ALIANÇA ESTRATÉGICA
Capacete Elmo: união entre universidade, indústria e poder público segue inspirando a inovação no Ceará
Por Marlyana Lima - Em 12/08/2026 às 12:22 AM

Professores Herbert da Rocha, Vasco Furtado e João Batista Furlan – Foto: Divulgação
Criado por uma articulação entre universidades, indústria, governo e instituições de saúde, o Capacete Elmo avançou de protótipos à produção industrial em poucos meses, chegou a hospitais de diferentes estados e teve mil unidades doadas a Manaus no momento mais crítico da falta de oxigênio, durante a pandemia de Covid-19. O resultado é um legado coletivo que coloca o Ceará em destaque.
Em 2020, quando a Covid-19 pressionava UTIs e elevava a demanda por ventilação mecânica, o Ceará reuniu competências que raramente operavam de forma tão integrada. Universidade, indústria, governo, profissionais de saúde e instituições de pesquisa passaram a trabalhar em torno de uma mesma questão: desenvolver uma alternativa de suporte respiratório que pudesse ser produzida no Brasil e ajudasse a evitar ou retardar a intubação de determinados pacientes.
Dessa articulação nasceu o Capacete Elmo. Inspirado em interfaces tipo capacete já utilizadas internacionalmente, especialmente na Itália, o conceito foi adaptado por pesquisadores cearenses à realidade dos hospitais brasileiros. O objetivo era chegar a um equipamento mais acessível, seguro, adaptável e de produção nacional.
O projeto reuniu Fundação Edson Queiroz, por meio da Universidade de Fortaleza (Unifor); Grupo Edson Queiroz, através da Esmaltec; Governo do Estado do Ceará, via Secretaria da Saúde; Universidade Federal do Ceará (UFC); FIEC, por meio do Senai/CE; Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE); Funcap e Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH).
Da universidade para a indústria

Professor Herbert da Rocha com o equipamento que ajudou a salvar vidas
Um dos pontos decisivos foi a conexão entre pesquisa acadêmica e capacidade industrial. A Unifor mobilizou laboratórios e pesquisadores como Vasco Furtado, Herbert da Rocha e João Batista Furlan, enquanto a Esmaltec entrou com experiência em engenharia, prototipagem, desenvolvimento de produtos e fabricação.
A divisão de competências acelerou o processo: médicos apresentavam as necessidades observadas nos hospitais; pesquisadores estudavam soluções; engenharia e design desenvolviam os protótipos; a indústria avaliava materiais e processos de fabricação; e instituições públicas participavam da validação e incorporação da tecnologia.
Os protótipos passaram por testes na Unifor/NAMI, Senai/CE e Escola de Saúde Pública do Ceará. Vedação, conforto, componentes e fluxo de ar e oxigênio foram sucessivamente ajustados. A Esmaltec posteriormente investiu em uma estrutura específica para fabricar o equipamento.
Após a etapa técnica, vieram os testes clínicos. As equipes avaliaram parâmetros respiratórios e o potencial do equipamento para evitar ou retardar a necessidade de intubação. Os resultados iniciais indicaram sua utilidade como alternativa no atendimento de pacientes com insuficiência respiratória causada pela Covid-19.
Da aprovação da Anvisa à escala nacional
O pneumologista e intensivista Marcelo Alcântara, então diretor da Escola de Saúde Pública do Ceará e participante do projeto desde março de 2020, assumiu a responsabilidade técnica médica necessária ao processo regulatório.
Em outubro de 2020, a Anvisa autorizou a fabricação do Capacete Elmo pela Esmaltec. Em questão de meses, o projeto havia percorrido o caminho entre pesquisa, prototipagem, validação clínica, aprovação regulatória e produção industrial.
A tecnologia passou então a ser utilizada em hospitais de diferentes estados. Entre seus diferenciais estavam o baixo custo em comparação a outras tecnologias, produção nacional, facilidade de transporte, menor dependência de equipamentos importados e a capacidade de reduzir a progressão de alguns pacientes para ventilação mecânica invasiva. O projeto também foi concebido para contribuir para a proteção das equipes responsáveis pelo atendimento.
Doação de equipamentos
Um dos capítulos mais representativos ocorreu em janeiro de 2021. No dia 14 daquele mês, Manaus ficou sem estoques de oxigênio medicinal nos hospitais públicos, no auge da segunda onda da pandemia.
Diante do colapso, a Esmaltec doou mil Capacetes Elmo para auxiliar unidades de saúde da capital amazonense. A tecnologia concebida a partir de uma emergência no Ceará passava, assim, a apoiar pacientes em um dos momentos mais dramáticos da pandemia brasileira.
Legado depois da pandemia

Professores João Batista Furlan e Vasco Furtado, Edson Queiroz Neto (GEQ) e professor Herbert da Rocha na solenidade de entrega da Medalha da Abolição – Foto: Ares Soares
O projeto não terminou com a emergência sanitária. O Elmo 2.0, desenvolvido com participação do pesquisador da Unifor Daniel Chagas, incorporou um equipamento eletrônico capaz de gerar dados para monitoramento pelas equipes médicas.
O Elmo também passou a integrar atividades de formação de estudantes e profissionais da saúde, transformando uma solução criada durante uma crise em objeto de pesquisa, ensino e desenvolvimento tecnológico.
Mais do que o equipamento em si, o projeto deixou um modelo. Em poucos meses, o Ceará conseguiu conectar ciência, universidade, indústria, saúde e poder público para levar uma solução do laboratório à produção em escala.
Em um país onde a distância entre pesquisa e mercado ainda é um dos grandes obstáculos à inovação, talvez seja esse o dado mais relevante da história do Capacete Elmo: quando diferentes competências foram colocadas a serviço do mesmo problema, a inovação ganhou velocidade — e chegou a quem precisava dela.
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