Descolamento da Meta

Inflação no Brasil e na economia global

Por Ana Cristina Cavalcante - Em 11 de janeiro de 2022

As explicações que Campos Neto terá a dar.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acabou de anunciar a inflação de 2021. Os dois dígitos estão confirmados em 10,06% para o fechamento do ano. Praticamente o dobro do teto de 5,25% e três vezes mais que a meta em torno de 3,5%. O sistema de metas é de responsabilidade da autoridade monetária. No Brasil, o Banco Central. Vale lembrar que o BC brasileiro tornou-se autônomo, portanto independente, no último novembro. O quê lhe imprime ainda maios responsabilidade. O presidente do banco, Roberto Campos Neto, terá que explicar ao ministro da Economia, Paulo Guedes, as razões do descolamento tão drástico da meta. Outras justificativas devem ser apresentadas. Por exemplo: a desvalorização do real frente ao dólar. Esta é mais uma importante atribuição concernente ao BC. Porém, é preciso olhar o todo. O contexto. Não foi o Banco Central que furou o teto de gastos, nem fez o orçamento secreto… Ou seja, não é o presidente da autoridade monetária independente quem terá todas as explicações para a farra fiscal. Mas o rito é este: meta não cumprida, razões apresentadas.

 

Brazil Finance Central Bank Campos

Campos Neto e Paulo Guedes: explicações sobre inflação/Foto: Sergio Lima AFP

 

A bigorna da inflação… Bigorna?

Antes, vamos explicar às novas gerações o que é bigorna. Os desenhos animados aboliram – ainda bem! – este objeto que caía a cada episódio sobre os personagens menos bonzinhos. Trata-se de um bloco de ferro revestido de aço, de corpo central em forma de paralelepípedo e extremidades afilando-se em cone ou pirâmide. Serve (ou servia) para polir cavalgaduras. A analogia é forte e até deselegante. Preços altos, escassez de empregos, milhares passando fome também o são. Os 10,06% de inflação do ano passado entram para a história como o maior patamar em seis anos. Pior: numa conjuntura de recessão técnica causadora do fenômeno da estagflação. A bigorna cai sobre quem tem menor de compra de combustíveis e alimentos. A coluna vem falando sobre as perspectivas brasileiras para o ano que começa. Já sabemos das dificuldades a superar e os desafios a vencer. E sabemos também que a economia funciona em movimentos cíclicos e anticíclicos. Com as medidas certas, o país retomará seu crescimento.

 

O que é estagflação?

É o nome dado ao processo de aumento de inflação e alta estagnação da economia.  Em outras palavras: uma relação desproporcional entre oferta de produtos e poder de compra dos consumidores. Quanto mais tempo passarmos em estagflação, maiores os danos ao setor produtivo que não terá como dar fluxo aos seus estoques. Sem salário ou renda, na economia brasileira altamente dependente destes pilares, a tendência é indústria, comércio e serviços irem diminuindo sua produtividade. O final disso? Melhor deixar para falar sobre este tema outro dia.

 

Perspectivas são melhores no mundo?

Os observadores do mercado global também estão com seus radares apontados para a economia. Segundo esses analistas, a base para a macroeconomia global em 2022 é positiva. Está previsto crescimento, com inflação elevada no curto prazo e moderada no início do ano. Porém, o viés de alta mantém-se pelos próximos 12 meses. Isto pode ser compensado por ativos com boa performance de crescimento. Entre eles, as ações e o crédito, que tendem a gerar retornos positivos ao longo do ano.

 

Quem serão os vencedores?

Capital Humano Divulgação

Capital Humano é um dos setores em alta/ Divulgação

Boa pergunta. Para saber quem serão os vencedores no novo ciclo, e  como os investidores podem identificar essas oportunidades e obter retornos diferenciados, basta observar algumas mudanças fundamentais que estão ocorrendo na base da economia.  O novo cenário terá implicações sobre o crescimento das vendas e a inflação. Por outro lado, criarão oportunidades de investimento em alguns setores e regiões. As tendências mais fortes estão em capital humano, tecnologia, transporte e energia.

 

Em busca dos postos de trabalho…

A pandemia não acabou. Ao contrário, recrudesceu. Muito países retornaram com medidas restritivas e de fechamento da economia. Por períodos de tempo menores. Mas ainda, assim, muito prejudiciais aos processos de retomada já em curso. A economia global deu um passo atrás. E os investidores estão enfrentando estes efeitos estruturais. No entanto, em nenhum setor isso é mais importante do que no mercado de trabalho. Aqui, fatores temporários e persistentes levaram à escassez de mão de obra no mercado internacional. Vejam a ironia. Na economia global sobram vagas e faltam trabalhadores. No Brasil, mesmo se todos nós estivéssemos saudáveis, não há empregos para quase 13 milhões de pessoas.

 

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