Sextando na turbulência

O duelo Economia x Política

Por Ana Cristina Cavalcante - Em 14 de janeiro de 2022

Quem venceu?

No Brasil, as coisas sempre foram e estão, mais do que nunca, emaranhadas. Política e  economia deveriam ser complementares. Hoje, no país, não é o caso de divergências. São antagônicas e disputam poder! A semana encerra com um round da luta entre o Centrão e a ala econômica do governo federal. O Palácio do Planalto bateu o martelo: quem comanda a maior parte do Orçamento é a Casa Civil. Em português claro: Ciro Nogueira, o secretário-chefe, venceu a queda de braço com o outrora superministro, Paulo Guedes. As repercussões de uma decisão como esta em ano eleitoral e todo cenário econômico negativo vão cobrar preço alto. Uma olhada rápida na macroeconomia deixa claro que não há quase nenhuma margem para mais erros. Em contrapartida, os parlamentares, bem representados na Casa Civil, não vão admitir qualquer movimento que atrapalhe seus planos eleitorais. Estamos vivendo um ano em que não se verá responsabilidade fiscal, ajuste monetário ou controle cambial. Os próximos meses serão de dinheiro público distribuído entre postulantes a cargos ou reconduções. E, claro, um auxílio emergencial que atenderá menos pessoas e com data para acabar. Logo após as eleições.

 

Ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira/Foto: AFP

 

Vitória de Pirro não é vitória.

Muitos conhecem o mito da Vitória de Pirro. Diz a lenda que, na Macedônia antes de Cristo, o rei Pirro fazia oposição à Roma. Certa vez, seu exército derrotou os romanos na Batalha de Heracleia. Para conseguir isso, porém, sofreu perdas irreparáveis. Na batalha seguinte, a de Ásculo, em que também perdeu muitos guerreiros, ao responder a um de seus comandados disse: “Uma outra vitória como esta me arruinará completamente”. É uma boa analogia para o momento político brasileiro. Principalmente para os que se utilizam de recursos públicos para interesses pessoais/eleitoreiros. A abundância de dinheiro nas mãos de poucos vai faltar na mesa de muitos. E, na hora do voto, esta relação pode dar o resultado contrário ao que alguns esperam. Ontem, nova pesquisa avaliou a popularidade e a satisfação do brasileiro com o governo Bolsonaro. O presidente nunca foi tão impopular. Até mesmo sua própria base de eleitores está insatisfeita. Pirro deixou a lição. Aprende quem quer.

 

E as reformas?

 

Paulo Guedes, ministro da Economia/Foto: Sergio Lima AFP

 

O governo de Michel Temer fez as únicas duas reformas do conjunto que o pacote ultraliberal de Paulo Guedes previa como solução mágica para o crescimento do Brasil. Fosse em V, H, A ou Z. Sobraram as reformas administrativa e tributária. Não acontecerão. Porque são impopulares. Uma série de categorias de altos servidores públicos está num movimento de entrega de cargos e ameaça de greve. Quem diria? Auditores fiscais, funcionários do Banco Central, servidores de autarquias importantes e ricas. Segundo o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), que representa os funcionários públicos federais, cerca de 19 categorias devem aderir a uma paralisação prevista para o dia 18. A crise começou quando Governo e Parlamento se articularam para reservar dinheiro do Orçamento para aumentar salários de policiais federais.

 

Muita calma nessa hora…

A discussão sobre a disparidade salarial entre trabalhadores da iniciativa privada e servidores públicos, especialmente os federais, é antiga no Brasil. Um enorme bode na sala. E desde sempre. Os servidores federais ganham bem mais que os empregados de empresas particulares. Estudos e mais estudos já mostraram a verdade nua e crua:  existe desigualdade salarial entre servidores e trabalhadores da iniciativa privada. E também desproporcionalidade dentro do próprio funcionalismo publico federal. Um problema e tanto que nenhum governo anterior resolveu, o atual só está piorando… E, muito provavelmente, os próximos não serão capazes de sanar. Estamos falando de direitos adquiridos por concurso público e planos de carreiras, por um lado. E  um mercado mal remunerado e que funciona de maneira precária, especialmente  depois da “flexibilização trabalhista” da reforma de Temer.

 

#PensamentoEconômico

Hoje é sexta-feira! Mas o #PensamentoEconômico não vai pegar leve. Teremos dois dias de mais tranquilidade pela frente. Então que sejam aproveitados para uma reflexão sobre a natureza da economia brasileira. Hoje, nosso pensador é ninguém menos que o gigante Herbert de Sousa, o Betinho. Ele diz:

“A tecnologia moderna é capaz de realizar a produção sem emprego. O diabo é que a economia moderna não consegue inventar o consumo sem salário”.

 

 

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