Pico da Estação

Fortal e Halleluya elevam a ocupação hoteleira e marcam a virada para uma nova temporada do turismo no Ceará

Por Fernando Benevides - Em 21/07/2026 às 7:45 PM

Na semana de maior movimento do calendário depois do Réveillon, dois megaeventos de públicos opostos enchem a rede de Fortaleza — e abrem o ciclo que a hotelaria cearense sustenta o ano inteiro com eventos, conectividade aérea e a temporada dos ventos.

Ivana Bezerra- Presidente da ABIH-CE

O Fortal, realizado entre 23 e 26 de julho, encerra um dos períodos mais movimentados do calendário turístico de Fortaleza e, ao mesmo tempo, marca o início de uma nova etapa para a hotelaria cearense. Diferentemente de outros destinos brasileiros, onde o movimento diminui após as férias escolares, o Ceará entra em um segundo semestre impulsionado por grandes eventos, turismo de negócios, conectividade aérea e pela temporada dos ventos, que atrai praticantes de esportes náuticos de diferentes países.

A força da semana não vem de um evento só. Fortal e Halleluya — uma micareta e um dos maiores festivais católicos do País, públicos bem diferentes que se completam na hotelaria — acontecem lado a lado e transformam este em, segundo a ABIH-CE, o período de maior ocupação da cidade depois do Réveillon. A expectativa da entidade é de 90% de ocupação na rede de Fortaleza entre 23 e 26 de julho, praticamente o mesmo patamar de 91% registrado no ano anterior.

Na capital, a folia movimenta hotéis, bares, restaurantes, transporte e serviços, ampliando a circulação de visitantes justamente no encerramento da alta estação tradicional. Ao longo dos próximos meses, o fluxo turístico tende a se redistribuir entre Fortaleza e destinos como Cumbuco, Preá, Jericoacoara, Icaraizinho de Amontada, Guajiru e Fortim, beneficiados pelas condições naturais para o kitesurf e o windsurf — a chamada temporada dos ventos, que estende o verão cearense pelo segundo semestre.

Há ainda um ingrediente que torna esta edição singular: 2026 é o ano em que Fortaleza celebra 300 anos. Pela primeira vez em 33 anos de história, o Fortal estendeu a programação para além dos quatro dias de trios, ocupando praticamente toda a semana anterior com corrida, ativações e operação integrada — um desenho que dilui o pico e prolonga o movimento na cidade, reforçando exatamente a lógica de desconcentração que passou a caracterizar o turismo cearense. (O Portal IN mostrou como o Fortal começou antes dos trios este ano.)

De poucos picos a uma demanda distribuída

Para Ivana Bezerra, presidente da ABIH-CE, essa mudança é resultado de uma transformação construída ao longo de décadas. Em entrevista ao Portal IN, a dirigente afirma que o Estado deixou de depender exclusivamente das férias escolares, do Réveillon e do Carnaval graças à combinação de investimentos em infraestrutura, ampliação da malha aérea e diversificação dos produtos turísticos.

Entre os marcos que aponta estão o Prodetur, a inauguração do Centro de Eventos do Ceará, em 2012, e a expansão da conectividade aérea, fortalecida a partir da implantação do hub internacional em Fortaleza. Na avaliação da executiva, esses fatores permitiram reduzir a sazonalidade da hotelaria ao ampliar o turismo de negócios, feiras, congressos e eventos corporativos durante praticamente todo o ano.

Outro movimento que destaca é a evolução do próprio perfil da hotelaria cearense. Se nas décadas passadas a maior parte dos investimentos se concentrava na orla de Fortaleza, hoje o crescimento também ocorre em destinos que combinam natureza, hospedagem de alto padrão e turismo de experiência. A expansão acompanha a procura crescente pelo chamado “Barefoot luxury” — conceito que alia sofisticação, integração com a natureza e serviços personalizados.

O desafio agora, na avaliação da presidente da ABIH-CE, não é apenas atrair novos visitantes, mas manter a competitividade dos destinos já consolidados. Qualificação da mão de obra, infraestrutura urbana, saneamento, conectividade e promoção permanente seguem decisivas para sustentar o crescimento da atividade:

“Criar um polo não é apenas erguer um hotel.”

Portal IN | Análise

O calendário turístico do Ceará tornou-se mais sofisticado do que a velha divisão entre alta e baixa estação. As férias de julho seguem entre os períodos de maior demanda para Fortaleza, enquanto eventos de grande porte, como o Fortal e o Halleluya, prolongam esse movimento. Na sequência, a temporada dos ventos fortalece o litoral, e o turismo de negócios sustenta a ocupação da capital ao longo dos meses seguintes.

É essa combinação que explica por que a hotelaria cearense passou a operar com demanda distribuída pelo ano, reduzindo a dependência de poucos períodos de férias e consolidando um modelo apoiado na diversidade de produtos e de mercados emissores. O que o Fortal marca, portanto, não é o fim da alta estação — é a virada para o ciclo que mantém o Ceará cheio quando o resto do país esvazia.

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