2022 EXPLICA 2026

A ruptura de 2022 ainda organiza os palanques de Ciro e Elmano

Por Fernando Benevides - Em 19/08/2026 às 6:05 PM

A campanha recoloca 2022 no centro da disputa. O arquivo contemporâneo mostra que as versões sobre aquele ano já divergiam enquanto os fatos aconteciam — e ajuda a explicar por que antigos adversários hoje estão juntos e antigos aliados, em campos opostos.

Befunky Collage

Ciro Gomes com Camilo Santana e Roberto Cláudio

Na noite de terça-feira (18), Camilo Santana e Ciro Gomes voltaram, por caminhos diferentes, ao episódio que ajuda a explicar a configuração da eleição cearense de 2026.

Em entrevista ao O POVO News, Camilo rebateu a pecha de “coronel” que Ciro lhe atribuíra dois dias antes. Disse que as críticas surgiram depois que deixou de se “submeter aos caprichos” do então aliado, lembrou os elogios que recebia de Ciro e relacionou a mudança ao racha entre PT e PDT em 2022.

Na mesma noite, na inauguração do comitê do deputado federal Danilo Forte, Ciro defendeu que diferenças da política nacional podem ser deixadas de lado para unir forças no Ceará. Citou Roberto Cláudio, Capitão Wagner e André Fernandes — nomes que estiveram em campos distintos em eleições anteriores.

A lógica não surgiu agora. Em maio, Ciro já havia dito que pediu desculpas a Wagner pelas antigas desavenças. Nesta semana, voltou ao assunto e atribuiu parte delas ao que chamou de “amor cego ao Cid”.

São duas leituras da mesma travessia. Uma apresenta a reorganização como capacidade de superar diferenças. A outra, como evidência de incoerência.

A história que ambas tentam explicar começa quatro anos antes.

O fato

Em 18 de julho de 2022, o diretório estadual do PDT escolheu Roberto Cláudio como pré-candidato ao Governo do Ceará.

O resultado foi de 55 votos para Roberto Cláudio, 29 para Izolda Cela e uma abstenção. A decisão foi anunciada por André Figueiredo, então presidente estadual da legenda. Carlos Lupi, presidente nacional do partido, acompanhou a reunião.

Ciro e Cid Gomes não estiveram presentes.

A ausência dos dois foi confirmada ao Portal IN por Ferruccio Feitosa, então integrante do PDT e presente à reunião.

A ausência, porém, não significava equidistância.

Ciro defendia Roberto Cláudio. Cid preferia a continuidade de Izolda.

Naquela noite, o campo vencedor ainda não apresentava a ruptura como consumada. Ao deixar a sede do partido, Roberto Cláudio dizia que procuraria Camilo para tentar preservar a aliança.

André Figueiredo também relatou que RC havia afirmado que, se não fosse o escolhido, estaria “com a camisa da Izolda” — e disse esperar dela a mesma conduta.

A recomposição não aconteceu.

As versões

A divergência sobre o que havia sido combinado não nasce na campanha de 2026. Ela já estava formulada antes da votação.

Camilo defendia publicamente que permitir a Izolda buscar a reeleição era uma questão de justiça, argumento sustentado também por aliados da então governadora.

Ciro apresentava outro entendimento: depois de o PDT apoiar os dois mandatos de Camilo e sua candidatura ao Senado, caberia ao próprio partido escolher o candidato ao Governo.

Em maio deste ano, Camilo apresentou sua versão de forma mais detalhada. Disse que havia um acordo para que Izolda fosse a candidata do grupo e acusou Ciro de rompê-lo.

Roberto Cláudio contesta essa interpretação e sustenta que não houve veto a Izolda, mas uma decisão interna do PDT.

O arquivo não decide quem tinha razão sobre um entendimento político que não foi formalizado publicamente.

Decide outra coisa:

as duas leituras já existiam quando a ruptura aconteceu.

Cid não acompanha RC

Convencao Estadual Do Pdt Ce 42

Convenção Estadual do PDT em 2022.   Foto: arquivo Portal IN

Cid não participou da reunião que escolheu Roberto Cláudio.

Também não subiu no palanque dele.

No primeiro turno, manteve-se fora da disputa estadual. Quando passou a participar de atividades eleitorais, no início de setembro, pediu votos para Ciro à Presidência e Camilo ao Senado, mas não declarou apoio formal nem a Roberto Cláudio nem a Elmano para governador.

Posteriormente, explicou que discordava do rompimento da antiga aliança e que preferiu se recolher para não transformar sua divergência com o irmão — então candidato à Presidência — em confronto público.

Camilo oferece hoje sua interpretação para a atitude de Cid: sustenta que ele não entrou na campanha de RC porque conhecia o acordo que, segundo sua versão, previa a candidatura de Izolda.

A distinção importa.

O fato documentado é que Cid não apoiou Roberto Cláudio; a razão atribuída por Camilo a essa decisão é a interpretação de Camilo sobre o acordo.

No segundo turno presidencial, com a disputa estadual já encerrada e Ciro fora da corrida, Cid declarou apoio a Lula e passou a atuar pela adesão de pedetistas à campanha petista.

Izolda vira a dobradiça

C276fa2a 6026 48e2 A0f4 598297387b47

Palanque de Elmano em 2022.   Foto: Arquivo Portal IN

Na mesma noite da escolha de Roberto Cláudio, Izolda afirmou que o partido havia decidido que ela não teria o direito de disputar a reeleição. Disse respeitar a decisão e que seguiria honrando o mandato de governadora.

Oito dias depois, anunciou sua saída do PDT.

O PT rompeu uma aliança de 16 anos e lançou Elmano de Freitas ao Governo. Na reta final do primeiro turno, Izolda declarou apoio ao petista.

A urna consolidou a ruptura.

Elmano venceu no primeiro turno com 54,02% dos votos válidos. Capitão Wagner ficou em segundo, com 31,72%, e Roberto Cláudio terminou em terceiro, com 14,14%.

A eleição acabou. A reorganização, não.

Depois da votação estadual, o próprio Portal IN registrou Cid, Camilo, Izolda e Elmano juntos em ato de apoio a Lula no Comitê Central do PT.

Izolda segue a mesma trajetória política. Em fevereiro de 2024, filiou-se ao PSB junto com Cid e permanece em 2026 no campo governista.

Camilo Lula E Elmano 1

Convenção Estadual do PT, realizada no último sábado, oficializou as candidaturas de Elmano de Freitas para o Governo do Ceará; de Camilo Santana para o Senado Federal, e de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República.  Foto: Arquivo Portal IN

O que Ciro dizia ao IN em 2024

Entre a ruptura de 2022 e a aliança de 2026 existe um capítulo intermediário registrado pelo próprio Grupo IN.

Em 31 de maio de 2024, Ciro concedeu entrevista exclusiva à revista Insider 210. Questionado sobre a aproximação de parlamentares ligados a ele com os grupos de Capitão Wagner e do campo bolsonarista, negou naquele momento uma “aliança protocolar”, mas reconheceu uma “ação comum” em torno de questões estaduais.

Resumiu sua lógica dizendo que “pouco importa se somos de direita ou esquerda”.

Na mesma entrevista, Ciro reconhecia Camilo como a maior liderança política do Ceará naquele momento, ao mesmo tempo em que dirigia contra ele algumas de suas críticas mais duras.

A cronologia ganha significado quando vista a partir de 2026:

Em 2022, Wagner era adversário.

Em 2024, Ciro já admitia ao IN uma ação comum com aquele campo.

Em 2026, Wagner disputa o Senado no bloco liderado por Ciro.

Leia também: Insider 210 com Ciro Gomes.

Edição 210: Ciro Gomes

O partido que fica para trás

A ruptura ainda passou por uma tentativa de disputar o próprio PDT.

Em 2023, Cid assumiu temporariamente o comando estadual da legenda durante a crise interna. Vieram depois novos confrontos com a direção nacional e a perda do comando partidário.

Em fevereiro de 2024, Cid e Izolda se filiaram ao PSB, acompanhados por prefeitos, vereadores e parlamentares.

Ciro permaneceu no PDT por mais tempo. Deixou a legenda em 2025 e retornou ao PSDB.

Roberto Cláudio está hoje no União Brasil.

Quatro anos depois daquela votação, Ciro, Cid e Roberto Cláudio já não estão no PDT. Izolda também deixou a legenda e hoje está no PSB.

O partido permaneceu sob a liderança de André Figueiredo no Ceará e, em 2026, está justamente no campo de Elmano.

A reorganização chega às chapas

A transformação fica ainda mais visível quando se observa a composição eleitoral de 2026.

Ciro e Roberto Cláudio continuam juntos, agora como candidatos a governador e vice.

Mas Capitão Wagner, que enfrentou RC e Elmano em 2022, integra hoje o mesmo campo de Ciro e disputa o Senado. A oposição apresenta ainda Alcides Fernandes para a segunda vaga.

A reorganização alcança até as suplências.

Prisco Bezerra, irmão de Roberto Cláudio e atual suplente de Cid Gomes, tornou-se primeiro suplente de Wagner. O segundo é Lúcio Gomes, irmão de Ciro e Cid.

Do outro lado está Cid, hoje no PSB, candidato ao Senado no campo de Elmano ao lado de Luizianne Lins.

Após a convenção do partido, Cid afirmou que, pela primeira vez, não votará no irmão para governador. Sua versão é que manteve a mesma posição política e que foi Ciro quem mudou ao se aproximar de antigos adversários.

Ciro oferece a interpretação oposta: apresenta a nova frente como resultado da capacidade de superar diferenças e reunir forças contra o atual grupo governista.

São novamente duas versões.

O desenho eleitoral, porém, é objetivo:

Ciro, Roberto Cláudio e Wagner estão hoje no mesmo campo. Elmano, Camilo e Cid integram o principal campo adversário.

O arquivo contra a memória

Ciro, Camilo, Cid e Roberto Cláudio têm suas próprias interpretações sobre o que aconteceu em 2022.

Campanhas também disputam memória.

O registro contemporâneo não precisa arbitrar quem traiu quem.

Ele mostra que, em julho de 2022, Camilo já defendia a continuidade de Izolda, Ciro já sustentava a prerrogativa de escolha do PDT, Cid não acompanhava a solução defendida pelo irmão, Izolda dizia que não teria o direito de disputar a reeleição e Roberto Cláudio ainda falava em preservar a aliança.

As versões sobre 2022 já eram diferentes enquanto 2022 ainda estava acontecendo.

Quatro anos depois, os personagens mudam de partido, antigos adversários dividem palanque e antigos aliados ocupam campos opostos.

A eleição de 2022 terminou nas urnas. A reorganização política que ela iniciou ainda está sendo decidida em 2026.

Mais notícias

Ver tudo de IN Poder