Pré-campanha
Ceará expõe disputa por influência no núcleo do bolsonarismo
Por Julia Fernandes Fraga - Em 27/06/2026 às 10:33 AM

Michelle Bolsonaro gravou longo depoimento sobre sua discordância em relação à aliança do PL com o pré-candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes. Foto: Montagem
As divergências em torno da estratégia eleitoral do PL no Ceará deixaram de ser uma questão regional para revelar uma disputa maior por influência dentro do bolsonarismo. O embate público entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), desencadeado pelas negociações do palanque cearense, passou a expor diferentes visões sobre a condução política da legenda em um momento decisivo da pré-campanha presidencial.
Ceará como estopim
A crise ganhou dimensão após Michelle criticar a aliança do PL com o pré-candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), defender as pré-candidaturas de Eduardo Girão (Novo) ao Executivo estadual e de Priscila Costa (PL) ao Senado, além de afirmar ter sido desrespeitada por Flávio durante as discussões sobre o tema.
Embora tenha surgido a partir da montagem do palanque cearense, o episódio rapidamente ultrapassou o cenário estadual. A repercussão colocou em evidência divergências sobre alianças eleitorais e sobre o espaço ocupado pelas principais lideranças do partido nas decisões estratégicas para 2026.
Bastidores da disputa
Segundo informações publicadas pelo Estadão, integrantes do PL Mulher avaliam que Flávio vem adotando, desde o lançamento de sua pré-candidatura à Presidência, movimentos para reduzir a influência política de Michelle dentro da legenda.
Entre eles estariam a aproximação com lideranças femininas do campo conservador, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), ambas com forte presença entre o eleitorado evangélico e feminino.
Na avaliação desse grupo, essas iniciativas diminuiriam o protagonismo conquistado por Michelle junto ao PL Mulher e em segmentos considerados estratégicos para a campanha presidencial. Essa interpretação, contudo, é atribuída a aliados da ex-primeira-dama e não representa uma posição oficial do partido.
Liderança sob pressão
Enquanto Michelle sinaliza que pretende manter protagonismo nas articulações políticas da legenda, Flávio busca reduzir os desgastes provocados pelo episódio. Após pedir desculpas publicamente à madrasta, recebeu manifestações de apoio de aliados e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que defendeu um entendimento entre os dois e reforçou a necessidade de unidade do campo conservador.
Nos bastidores, dirigentes do PL atuam para impedir que o conflito repercuta sobre a consolidação dos palanques estaduais e sobre a estratégia nacional da legenda. A avaliação é que o episódio também passou a medir a capacidade de Flávio de conduzir a articulação política do partido em sua primeira disputa presidencial.
Reflexos para 2026
A poucos dias do início das convenções partidárias, o desafio do PL vai além de pacificar um conflito familiar. A legenda precisará administrar interesses internos sem comprometer a construção de alianças nos estados e a estratégia nacional da pré-campanha.
Nesse contexto, o Ceará deixou de ser apenas o palco de uma negociação regional para se tornar o ponto de partida de uma crise que evidenciou disputas por influência dentro do bolsonarismo e trouxe novos desafios para a condução política do principal partido de oposição ao governo federal.
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