Agenda Econômica

O Ceará tem uma janela econômica. A campanha ainda não discute o que pode fechá-la

Por Fernando Benevides - Em 11/08/2026 às 11:09 PM

Economistas reunidos no DN Business apontaram vantagens competitivas do Estado no próximo ciclo brasileiro, mas também alertaram para as restrições fiscais que aguardam o País em 2027. Na véspera, o primeiro debate entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas passou longe dessa agenda.

Captura De Tela 2026 08 11 Às 22.53.37

Eduardo Giannetti, Ana Paula Vescovi e Caio Megale debateram o cenário que o Brasil encontrará a partir de 2027.  Fotos: DN Business

Na segunda-feira (10), no auditório do BS Design, em Fortaleza, quatro economistas discutiram diante de cerca de 250 participantes o cenário que o Brasil encontrará a partir de 2027. Três deles fizeram avaliações específicas sobre a posição do Ceará.

Eduardo Giannetti, Ana Paula Vescovi e Caio Megale chegaram, por caminhos diferentes, a uma conclusão semelhante: o Estado reúne condições para ocupar posição relevante no próximo ciclo econômico brasileiro.

Mas havia uma segunda parte nesse diagnóstico.

O ambiente capaz de transformar potencial em crescimento dependerá também do que acontecer com as contas públicas, os juros e a capacidade de investimento do País a partir do próximo ano.

Na véspera, num palco a poucos quilômetros dali, Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) haviam realizado o primeiro confronto direto da campanha ao Governo do Ceará.

A eleição discutiu principalmente os problemas do presente. O fórum econômico falou das condições do futuro.

E a distância entre as duas conversas talvez seja uma das questões mais importantes desta campanha.

As análises foram apresentadas na primeira edição do DN Business, fórum do Sistema Verdes Mares, e em entrevistas concedidas pelos economistas ao Diário do Nordeste.

A oportunidade

Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, descreveu o Ceará como bem posicionado para um novo ciclo de crescimento por combinar mercado interno firme com participação nos principais motores de exportação do país — citou hortifrúti e turismo —, avaliando que o Estado cresce puxado sobretudo por produtos de alto valor agregado.

Eduardo Giannetti chegou à mesma questão a partir da transformação da economia mundial.

Na avaliação do economista, professor e escritor, a crise da chamada hiperglobalização abre espaço para uma reorganização das cadeias internacionais e para a procura de novos parceiros e fornecedores. Nesse cenário, apontou vantagens brasileiras e destacou, no Ceará, ativos como energia renovável, turismo, infraestrutura e educação.

Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, acrescentou outra variável: a Reforma Tributária.

Para ela, a mudança do sistema de impostos pode alterar fatores tradicionais de localização de investimentos e abrir oportunidades para estados do Nordeste, especialmente em áreas como energia, agro e novas tecnologias — desde que exista estratégia de desenvolvimento e ambiente favorável aos negócios.

São três economistas sem vínculo com a política cearense, entrevistados separadamente, identificando vantagens semelhantes.

Mas nenhuma dessas oportunidades foi apresentada como automática.

O tamanho do “se”

A formulação de Megale foi condicional e explícita: o Nordeste, e o Ceará em particular, pode ser protagonista no próximo ciclo se as contas forem ajustadas, os juros caírem e os impostos forem reduzidos.

O restante do fórum tratou justamente do tamanho desse “se”. Os números a seguir constam do relato publicado pelo Diário do Nordeste sobre o evento.

Vescovi apontou 2027 como o ano em que se esgotam os impulsos fiscais que hoje sustentam o crescimento. Descreveu uma dívida que saiu de 54% do PIB há quinze anos para algo entre 83% e 84%, financiando despesa corrente em vez de investimento.

Também chamou atenção para o descompasso entre uma despesa avançando perto de 10% e uma arrecadação sustentável em torno de 5%.

Ainda segundo o relato do jornal, Fernando M. Gonçalves, superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Itaú Unibanco, projetou a dívida em 86,5% do PIB em 2027 e calculou em 2,4% do PIB o superávit primário necessário para estabilizá-la.

Acrescentou uma variável de efeito direto sobre o interior cearense: a previsão de um El Niño de forte magnitude deve retrair o crescimento no ano que vem, com impacto sobre a safra de milho. O Itaú projeta o PIB brasileiro em 1,9% neste ano e 1,5% no próximo, com risco de revisão para baixo.

Megale também considerou pouco provável que o país tenha juros muito abaixo de 9% ou 10% no horizonte próximo. A Selic está em 14% ao ano desde o corte aprovado pelo Copom em 5 de agosto, o quarto consecutivo.

Giannetti acrescentou a variável política: ajustes mais difíceis tendem a encontrar espaço no início de um mandato, quando o capital político de um governo é maior.

Não é necessário concordar com todas essas projeções para reconhecer o ponto comum. Na leitura apresentada no DN Business, o Ceará pode entrar no próximo ciclo com vantagens competitivas importantes, mas fará isso dentro de uma economia nacional sujeita a restrições fiscais, crescimento mais lento e juros ainda elevados.

É essa a equação que a eleição ainda não começou a discutir.

O debate discutiu outra coisa

No domingo (9), o primeiro debate entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas, promovido pela Band Ceará, foi dominado principalmente pela segurança pública.

A prioridade é compreensível. Segurança aparece entre as principais preocupações da população e ocupa posição central nesta eleição.

Mas o confronto dedicou pouco espaço à formulação de propostas. Levantamento publicado pelo O POVO calculou que 9,5% das falas de Ciro e 5,5% das de Elmano foram direcionadas a propostas.

A assimetria está justamente aí.

Energia renovável, turismo, agro, infraestrutura, educação, ambiente de negócios e Reforma Tributária apareceram no dia seguinte como elementos capazes de definir a posição econômica do Ceará nos próximos anos.

Nenhum deles organizou a discussão de domingo.

Não significa que os candidatos não tenham projetos nessas áreas. Significa que, no primeiro grande encontro da campanha, elas ainda não ocuparam o centro da disputa.

O calendário já está correndo

Há dois prazos que aproximam a discussão econômica da eleição estadual.

O primeiro é 1º de janeiro de 2027.

Quem vencer a eleição assumirá o Governo do Ceará justamente quando, segundo o cenário apresentado pelos economistas, o próximo governo federal terá de enfrentar decisões fiscais importantes.

O segundo prazo é mais longo e talvez ainda mais transformador.

A Reforma Tributária já entrou em sua fase de transição. Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS serão gradualmente substituídos pelo IBS. Em 2033, o novo sistema entra integralmente em vigor. O IBS terá gestão compartilhada entre estados e municípios.

Isso significa que o próximo governador administrará praticamente todo o mandato dentro da fase decisiva de preparação para uma mudança que altera uma das principais fontes de receita estadual.

Se Vescovi está correta ao afirmar que a Reforma Tributária pode redefinir a capacidade dos estados de disputar investimentos, esse não é um assunto reservado a Brasília.

É uma questão diretamente ligada à estratégia econômica do Ceará.

Onde a conta chega ao Estado

O Ceará tem orçamento autorizado de R$ 48,05 bilhões em 2026. Desse total, aproximadamente R$ 5,25 bilhões estão previstos para investimentos, algo próximo de 11%.

O percentual não representa toda a margem fiscal disponível ao governador — orçamento público é mais complexo do que a simples divisão entre despesas obrigatórias e investimento.

Mas mostra a dimensão da parcela destinada diretamente à expansão de infraestrutura e a outros investimentos públicos.

E é justamente nesse território que muitas promessas eleitorais se materializam: estradas, equipamentos, expansão de serviços e novos projetos.

Há ainda um dado de premissa. A peça orçamentária de 2026 foi montada sobre expectativa de crescimento de 1,83% do PIB nacional, e a projeção do Itaú para o ano é de 1,9% — a hipótese está de pé. Para 2027, porém, o banco trabalha com 1,5%, com risco de revisão para baixo.

O próximo orçamento estadual, que ainda será elaborado, nascerá sob cenário menos favorável que o atual.

Se o ambiente nacional de 2027 for mais restritivo, como projetaram os economistas reunidos no DN Business, a discussão sobre prioridades se tornará ainda mais importante.

Não se trata apenas de perguntar quanto cada candidato pretende gastar. É preciso saber onde pretende concentrar capacidade financeira, política e administrativa.

Leitura IN

Uma campanha escolhe o que discute. Não escolhe o que vai encontrar.

O diagnóstico apresentado no BS Design não pertence a Ciro nem a Elmano. Vale para quem vencer.

O próximo governador receberá um Ceará com vantagens que economistas de diferentes formações identificam: energia renovável, turismo, infraestrutura, educação, agro e posição estratégica no Nordeste.

Mas receberá também um Estado inserido em um País que pode iniciar 2027 discutindo ajuste fiscal, juros elevados, desaceleração econômica e uma transformação profunda do sistema tributário.

Isso produz perguntas talvez mais importantes do que boa parte das que apareceram no primeiro debate.

Como o Ceará pretende transformar energia renovável em uma nova cadeia de riqueza?

Como turismo e infraestrutura podem ampliar sua participação na economia?

Qual será a estratégia estadual para disputar investimentos no novo ambiente tributário?

E, num cenário nacional menos expansivo, quais projetos serão prioridade quando promessa tiver de virar orçamento?

Nenhuma dessas perguntas dominou o domingo.

A campanha eleitoral começa oficialmente em 16 de agosto. Haverá outros debates, entrevistas, programas e confrontos.

Vale observar se a discussão econômica entrará neles.

Porque a eleição pode passar meses decidindo quem governará o Ceará.

A economia não esperará até lá para decidir em que condições ele governará.


As análises citadas foram apresentadas na primeira edição do DN Business, fórum do Sistema Verdes Mares realizado em 10 de agosto de 2026, e reproduzidas a partir da cobertura publicada pelo Diário do Nordeste — palestras e entrevistas concedidas ao jornal. Os dados do orçamento estadual são da Lei Orçamentária Anual de 2026 e das publicações da Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará. O cronograma da Reforma Tributária segue a Receita Federal. O patamar da Selic é o vigente após a reunião do Copom de 5 de agosto, conforme o Banco Central. Os percentuais de fala no debate são de levantamento divulgado pelo O POVO em 11 de agosto.

Mais notícias

Ver tudo de IN Poder