Reynaldo Fonseca

Mistério das coisas comuns e capacidade de transmutar o banal em extraordinário

Por Lorena Cabral - Em 15/06/2024 às 3:02 PM

Reynaldo Fonseca, Menino Na Lua, 1969, Óleo Sobre Tela, 68,7 X 48,7 Cm, Acervo Rec Cultural, Recife Pe

Reynaldo Fonseca, Menino Na Lua, 1969, Óleo Sobre Tela, 68,7 X 48,7 Cm, Acervo Rec Cultural, Recife Pe

Por Denise Mattar

Reynaldo Fonseca (1925 – 2019) é um dos mais importantes artistas pernambucanos, ocupando um lugar único no circuito nacional de arte. Personalidade singular, sua obra integra a falange de artistas enigmáticos, entre os quais se incluem Ismael Nery, Maria Martins e Farnese de Andrade, que, para garantir seu lugar no circuito de arte, conseguiram driblar a recorrente negação de parte da crítica nacional ao universo atemporal e fantástico.

Reynaldo Fonseca, Borboleta, 1973, Óleo Sobre Tela, 58,4 X 52,4 Cm, Coleção Márcio Mota, Recife Pe

Reynaldo Fonseca, Borboleta, 1973, Óleo Sobre Tela, 58,4 X 52,4 Cm, Coleção Márcio Mota, Recife Pe

Relevância de sua arte
Durante sua longa vida, o artista fez enorme sucesso e contou com uma legião de admiradores entre público, crítica e colecionadores. Os mais importantes intelectuais escreveram sobre a sua obra, entre eles: Ariano Suassuna, Francisco Brennand, Frederico Morais, Olívio Tavares de Araújo, Roberto Pontual e Walmir Ayala. Apesar disso, a última publicação abrangente sobre o artista datava da década de 1980, numa edição inteiramente esgotada.

O prazeroso desafio de elaborar o livro
Com o objetivo de preencher essa lacuna fui convidada por Mauricio Redig de Campos a elaborar um novo livro sobre o artista. O processo de trabalho durou dois anos e revestiu-se de extrema dificuldade, não por falta, mas pelo excesso de material, de todas as ordens, guardados pelo artista, e conservados pela família. Uma verdadeira avalanche de desenhos, cartas, entrevistas, catálogos, convites e artigos de jornais e revistas. A pesquisa trouxe muitas novas luzes ao estudo do artista, revelando a marcante presença de Reynaldo na cena artística pernambucana, apesar de seu legendário retraimento. Em 1944, aos dezenove anos, Reynaldo recebeu o segundo prêmio do Salão de Pintura do Museu do Estado, o primeiro lugar coube a Vicente do Rego Monteiro, já famoso, e com 45 anos. A comparação foi inevitável.

Reynaldo Fonseca, Carta, 1980, Óleo Sobre Eucatex, 44,8 X 36,6 Cm, Coleção Família Reynaldo Fonseca, Recife Pe

Reynaldo Fonseca, Carta, 1980, Óleo Sobre Eucatex, 44,8 X 36,6 Cm, Coleção Família Reynaldo Fonseca, Recife Pe

Mais sobre a publicação
O livro, com 272 páginas, bilíngue (em português e inglês), foi realizado com o patrocínio do Instituto REC Cultural, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e reúne um conjunto de obras de toda a produção do artista, desde a década de 1930 até sua morte, em 2019. Uma cronologia ilustrada percorre toda a vida de Fonseca, incluindo sua significativa inserção no cenário nacional a partir da década de 1980.

A vida calma e solitária de Reynaldo
Reynaldo sempre quis se manter alheio a todas essas premências do mundo real, e, por isso, optou por uma vida calma e solitária e por uma pintura atemporal. Em outra clave, era o que defendia Ismael Nery, que acreditava que a abstração do espaço e tempo permitia chegar à essência das coisas e distinguir o que realmente tinha importância e significado. Não por acaso, a obra dos dois artistas é permeada por elementos como a ambiguidade, o insólito e o irreal, gerando uma estranheza que bordeja o surrealismo – sem realmente sê-lo. Às observações de que era um criador de figuras mortas e não humanas, assim respondia Reynaldo: “Elas estão fora do tempo e do espaço… Já me acusaram de usar roupas muito antigas nas figuras. Eu não faço isso, as roupas são muito simples, eu não uso enfeites, golas, rendas. É que a pintura assume o clima de coisa antiga. Para mim, estão apenas fora do tempo”.
Essa opção temática, aliada à perfeição técnica, que sempre pautou sua produção, tornaram Reynaldo Fonseca um artista especial, um mestre cujo trabalho se alicerça no mistério das coisas comuns e na capacidade de transmutar o banal em extraordinário.

Reynaldo Fonseca, Camponesa Voadora, 1971, Óleo Sobre Tela , 98,8 X 71,5 Cm, Coleção Wilson Souza, Recife Pe

Reynaldo Fonseca, Camponesa Voadora, 1971, Óleo Sobre Tela , 98,8 X 71,5 Cm, Coleção Wilson Souza, Recife Pe

Sobre o lançamento
O livro Reynaldo Fonseca foi lançado em maio deste ano no Museu do Estado de Pernambuco, em Recife, seguindo para lançamento em agosto no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, e na Danielian Galeria, no Rio de Janeiro.

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