A disputa pela direita cearense

Eduardo Girão deixa disputa pelo Governo do Ceará e esvazia alternativa defendida por Michelle contra a aliança com Ciro

Por Fernando Benevides - Em 04/08/2026 às 4:53 PM

Confirmado nesta terça-feira (4) como candidato a vice-presidente na chapa de Romeu Zema, o senador retira a pré-candidatura ao Governo do Ceará e encerra o terceiro ato de uma disputa de nove meses dentro da direita cearense. A estratégia construída por André Fernandes prevalece no Estado, mas sem unificar o bolsonarismo em torno de Ciro Gomes.

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Romeu Zema e Eduardo Girão                  Foto: Portal IN

A candidatura de Eduardo Girão ao Governo do Ceará nunca foi apenas uma disputa estadual.

Durante nove meses, ela simbolizou a resistência de uma ala do bolsonarismo à aproximação entre o PL cearense e Ciro Gomes. Confirmado nesta terça-feira (4), na convenção nacional do Novo, como candidato a vice-presidente da República na chapa de Romeu Zema, Girão deixa a corrida ao Palácio da Abolição e encerra o último capítulo desse conflito — sem encerrá-lo politicamente.

A pré-candidatura estadual durou pouco mais de um mês e nunca passou de 3% nas pesquisas Genial/Quaest. Sua importância, porém, nunca esteve nos números.

As convenções partidárias terminam nesta quarta-feira (5). Os registros das candidaturas vão à Justiça Eleitoral até 15 de agosto, e a propaganda começa oficialmente em 16 de agosto.

Primeiro ato: a aliança entra em crise

A história começa antes da candidatura de Girão.

Em maio de 2025, André Fernandes, presidente estadual do PL, anunciou a disposição de apoiar Ciro Gomes sob o argumento de que toda ajuda seria válida para derrotar o PT no Ceará.

Segundo apuração publicada pela CartaCapital, a articulação também atendia a um objetivo interno: viabilizar a candidatura do pai de André, o pastor Alcides Fernandes, ao Senado. A aproximação com Ciro não representava apenas uma estratégia de enfrentamento ao PT; também fortalecia um projeto político do grupo que comandava o partido no Estado.

Michelle Bolsonaro reagiu publicamente quando Girão lançou sua pré-candidatura ao Governo. A crítica foi dirigida ao próprio André Fernandes e desencadeou uma crise dentro da família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro classificou a manifestação da ex-primeira-dama como autoritária e constrangedora, enquanto outros filhos do ex-presidente saíram em defesa do deputado cearense.

Em 2 de dezembro de 2025, após reunião em Brasília com Valdemar Costa Neto, Rogério Marinho, Flávio Bolsonaro, Michelle e André Fernandes, o PL anunciou a suspensão das negociações.

A aliança não morreu.

Entrou em compasso de espera.

Segundo ato: a disputa migra para o Senado

Sete meses depois, a disputa voltou ao centro do debate — agora pela vaga ao Senado.

No início de julho, Flávio Bolsonaro participou do lançamento da pré-candidatura de Alcides Fernandes, sinalizando o apoio da direção nacional ao nome defendido pelo diretório cearense.

Michelle Bolsonaro tinha outra preferência: Priscila Costa. Vereadora mais votada de Fortaleza em 2024 e posteriormente confirmada deputada federal após a retotalização dos votos de 2022, ela havia lançado sua pré-candidatura ao Senado meses antes, em Brasília, ao lado da própria Michelle e de Valdemar Costa Neto.

Em 22 de julho, a convenção estadual do PL encerrou o impasse.

Os delegados aprovaram o apoio a Ciro Gomes, oficializaram Alcides Fernandes para o Senado e definiram Priscila Costa como candidata à Câmara dos Deputados.

Mais do que uma escolha de nomes, o episódio mostrou que, naquela disputa específica, a estrutura partidária construída no Ceará prevaleceu sobre a preferência manifestada por parte da liderança nacional.

Dois dias antes, Michelle havia chamado a direita cearense de “vendida”.

Terceiro ato: a candidatura desaparece

Restava a candidatura de Eduardo Girão ao Governo.

Ela deixou de existir sem que a política cearense precisasse resolver o impasse.

Sem conseguir fechar uma aliança nacional com Podemos e Democracia Cristã, o Novo decidiu lançar uma chapa formada exclusivamente por filiados da legenda. Antes de confirmar Girão, o partido avaliou outros nomes para a vice-presidência. Segundo o colunista Guilherme Gonsalves, de O POVO, Girão mantinha como prioridade disputar o Governo do Ceará e aceitou o convite de Romeu Zema para integrar a chapa presidencial.

A decisão encerrou a disputa estadual.

O que não muda

Seria precipitado concluir que a direita se unificou.

A oposição de Michelle Bolsonaro à aproximação com Ciro é anterior à candidatura de Girão e não dependia dela. Em junho, a ex-primeira-dama afirmou que não trocaria princípios por pragmatismo político e declarou que Ciro jamais teria seu apoio, lembrando críticas feitas por ele ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à sua família.

O que a saída de Girão retira do tabuleiro é a alternativa eleitoral concreta, não a divergência política.

Quem rejeita simultaneamente Elmano de Freitas e a aliança entre PL e Ciro deixa de ter uma candidatura própria ao Governo do Ceará.

Também não há base para afirmar transferência automática de votos.

Na pesquisa Genial/Quaest, Girão aparecia com 3%, contra 43% de Ciro e 33% de Elmano. Esse percentual não altera, por si só, a dinâmica eleitoral.

O principal ganho para Ciro é político e organizacional: deixa de enfrentar uma candidatura concorrente no mesmo campo ideológico e concentra a disputa diretamente contra o governador.

Um efeito sobre o Senado

A saída de Girão produz ainda um efeito pouco observado.

O senador deixa de disputar justamente uma das duas vagas abertas ao Senado nesta eleição. Seu mandato, iniciado em 2019, termina em janeiro de 2027.

Com sua decisão de integrar a chapa presidencial de Romeu Zema, ao menos uma das duas cadeiras cearenses será ocupada por um novo senador.

Quem sai

Empresário com atuação nos setores de hotelaria, segurança privada, transporte de valores e audiovisual, Eduardo Girão foi eleito senador em 2018 pelo Pros, passou pelo Podemos e ingressou no Novo em 2023, tornando-se o primeiro representante da legenda no Senado Federal. Sua atuação em pautas conservadoras aproximou-o de Michelle Bolsonaro e conferiu dimensão nacional à pré-candidatura ao Governo do Ceará.

Leitura IN

O Ceará entrou nesta eleição como palco de uma disputa que nunca foi exclusivamente cearense.

Enquanto a política local discutia chapas, Senado e alianças, travava-se uma disputa mais ampla sobre o rumo do bolsonarismo em um Estado onde o candidato mais competitivo da oposição não pertence à direita tradicional.

A resposta não veio por convencimento.

Veio pela sucessão de decisões partidárias.

Ao longo de nove meses, prevaleceu a estratégia construída pelo diretório estadual do PL. André Fernandes preservou a aliança com Ciro, confirmou o pai na chapa ao Senado e manteve sua liderança sobre o partido no Ceará.

Michelle Bolsonaro preservou sua objeção.

A candidatura de Eduardo Girão desapareceu do tabuleiro.

A divergência que lhe deu origem, não.

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