Verdade histórica
Relatório da CEMDP aponta assassinato de JK e confronta versão oficial da ditadura
Por Julia Fernandes Fraga - Em 08/05/2026 às 2:40 PM

Fundador de Brasília havia sido eleito parlamentar e foi cassado pelo regime. Foto: Gervasio Batista/Arquivo Público do Distrito Federal
Relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar em 1976, contrariando oficialmente a narrativa histórica sustentada pelo regime e posteriormente validada pela Comissão Nacional da Verdade. A informação foi revelada inicialmente pela Folha de S.Paulo e confirmada por outros veículos da imprensa nacional.
O parecer, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, reúne mais de 5 mil páginas, entre anexos, análises técnicas e investigações anteriores. O documento ainda está em avaliação pelos integrantes da comissão, mas tende a ser aprovado pela maioria do colegiado acreditam interlocutores.
Revisão da narrativa oficial
JK morreu em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, próximo a Resende. O Opala em que viajava, conduzido por seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro, colidiu com uma carreta após perder o controle na pista. Os dois morreram no episódio.
A investigação conduzida durante a ditadura sustentou que o carro teria sido atingido por um ônibus antes da colisão. A mesma conclusão foi mantida pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
O novo relatório, porém, se apoia em apurações posteriores, incluindo inquérito do Ministério Público Federal concluído em 2019, que descartou evidências da suposta colisão entre o ônibus e o carro de JK e apontou falhas graves nas perícias realizadas à época.
Perícia e contexto da época
Uma das principais bases técnicas do documento é o estudo conduzido pelo engenheiro Sergio Ejzenberg, que revisou laudos antigos e produziu simulações em 3D do acidente. Segundo a análise, os laudos usados para sustentar a tese do acidente apresentavam inconsistências técnicas.
O relatório também destaca o contexto político do período. Cassado após o golpe de 1964, JK era uma das principais lideranças de oposição ao regime militar e integrava a Frente Ampla. O documento menciona ainda a atuação da Operação Condor, articulação entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores políticos.
Próximos passos
Caso o parecer seja aprovado, a comissão poderá recomendar a retificação da certidão de óbito de JK e de Geraldo Ribeiro, reconhecendo oficialmente que as mortes ocorreram em razão de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro.
O Ministério dos Direitos Humanos, em nota, informou que o relatório segue em análise e ainda não foi votado. As decisões da CEMDP são tomadas por maioria simples.
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