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Sertões 2026: Conheça Rogério Almeida, tetracampeão cearense que chega a sua 26ª participação na prova

Por Livia Leal - Em 19/08/2026 às 11:00 PM

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Foto: Divulgação Sertões / Pedro Malamam

Neste sábado (22), os motores do Rally dos Sertões voltam a ligar em Goiânia, para a 34ª edição do maior rally das Américas. São 146 veículos entre carros, motos e UTVs, 248 competidores de 104 municípios e 19 estados, prontos para percorrer 4.020 quilômetros — 2.611 deles cronometrados — por Goiás, Bahia e Tocantins até 30 de agosto, com pernoites em Cavalcante, Luís Eduardo Magalhães, Mateiros, Porto Nacional, Minaçu, Niquelândia e Goianésia. É o maior rally das Américas, e um dos mais duros dos últimos anos, segundo os próprios competidores que já chegaram à Vila Sertões, montada no Autódromo Ayrton Senna.

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Nesse grid, há um nome que atravessa a história recente da prova como poucos: o do cearense Rogério Almeida, que soma 26 participações no Sertões, quatro títulos gerais e mais de 35 anos dedicados ao rally cross country. Antes da largada, ele reconstitui, em entrevista ao IN Road, o que há por trás desses números — e o que ainda o leva de volta ao Sertões depois de tanto tempo de estrada.

Uma decisão dentro do rio

A cena que melhor resume seu ofício aconteceu em 2005, no oitavo dia de uma prova de dez, na travessia do Rio Bags. A equipe de Rogério liderava a geral quando encontrou carros, motos e quadriciclos atolados na água. “Percebendo o perigo de perdermos a liderança ali, eu decidi descer do carro e entrar a pé no rio para analisar o fundo e escolher o caminho mais seguro”, conta. Um concorrente furou a fila e passou antes — sem saber que testava, na prática, a rota que Rogério tinha acabado de escolher. “Deixa ele ir. Esse cara vai acabar confirmando se a rota que eu escolhi está certa, sem arriscar o nosso veículo”, lembra ter pensado. Deu certo: o carro seguiu logo depois, com segurança, e a liderança se manteve até a vitória geral, pela Chevrolet Rally Team.

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Rogério Almeida (à direita) carrega quatro títulos do Sertões / Foto: Arquivo pessoal

É esse tipo de decisão — tomada em segundos, sob pressão, longe das câmeras — que Rogério aponta como o verdadeiro conteúdo de um rally de longa duração. Velocidade importa, mas não decide sozinha.

A relação de Rogério com o esporte começou na motovelocidade, no fim dos anos 1980, e passou por uma primeira tentativa frustrada no rally em 1991: “eu não tinha gostado muito dessa brincadeira de início”, admite. O ponto de virada veio em 2000, por convite de um amigo cearense e então campeão dos Sertões, para correr o Campeonato Brasileiro. “Vencemos logo a primeira especial de cara. Na segunda, porém, acabamos capotando. Apesar do susto, foi uma experiência fantástica”, diz. “A partir daquele momento, o rali virou uma grande paixão.”

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Foto: Arquivo pessoal

De lá para cá, são 26 Sertões — ele deixou de competir em apenas uma edição, a de 2023 — mais dois anos dentro da própria organização do evento, em 2019 e 2020, estruturando a categoria de regularidade. No currículo, títulos gerais em 2005, 2011, 2018 e 2024, por equipes diferentes; seis conquistas do Cerapió-Piocerá; o título brasileiro de Rally Cross Country em 2025; o Capacete de Ouro de melhor navegador da temporada, em 2005; e um terceiro lugar mundial, na etapa Por Las Pampas, em 2006. Passagens por Chevrolet Rally Team, Mitsubishi, Troller, Território 4×4/Ford Ranger, Rally Art Mitsubishi e C3 Racing completam a trajetória.

O que faz, de fato, um navegador

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Foto: Arquivo pessoal / Rogério Almeida

Explicar a função é mais difícil do que exercê-la. Não é um copiloto que lê instruções em voz alta: é quem interpreta a planilha de rota, identifica riscos, escolhe caminhos em tempo real e dialoga o tempo todo com o piloto — além de acompanhar de perto a parte mecânica do carro. Na campanha vitoriosa de 2005, o trabalho foi ainda mais amplo: “precisei atuar como conciliador para apaziguar atritos e conflitos que surgiram entre o piloto e a chefia da nossa equipe técnica”, relata Rogério. Manter a paz dentro do time, garante, também é parte do ofício.

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Foto: Arquivo pessoal / Rogério Almeida

Durante a prova, diz, corpo e mente entram em um estado quase automático: “a adrenalina do dia a dia permanece tão elevada que o cansaço simplesmente não bate”. Fora da pista, a rotina é outra — alimentação sem surpresas, para evitar problemas gastrointestinais nas especiais mais longas; sono em dia sempre que possível; checagem do carro e alinhamento tático constante com a equipe. Performance, no rally, começa muito antes da bandeira verde.

Poucas coisas mudaram tanto no esporte quanto a forma de navegar. “Antigamente, era uma rotina exaustiva: passávamos as noites em claro debruçados sobre os calhamaços de papel, analisando minuciosamente cada perigo e referência do percurso”, recorda. Hoje a lógica se inverteu — “a navegação está bem mais prática porque as planilhas de rota nos são entregues digitalmente apenas alguns minutos antes da nossa largada”. A ferramenta mudou; a exigência de leitura rápida e frieza sob pressão, segundo ele, não.

“É preciso viver o rali de perto”

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Foto: Arquivo pessoal / Rogério Almeida

Sobre a magnitude da prova que volta a rodar neste sábado, Rogério é direto: “estamos falando do segundo maior rali do mundo. É uma jornada e uma aventura contínua que atravessa o Brasil de ponta a ponta”. É esse tamanho — mais do que a velocidade pura — que, para ele, transforma o Sertões em um laboratório de alta performance, no qual disciplina e gestão de pressão pesam tanto quanto talento ao volante.

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Rogério Almeida praticando motovelocidade / Foto: Arquivo pessoal

Depois de mais de três décadas, quatro títulos e uma travessia de rio que virou lenda pessoal, a pergunta natural é o que ainda motiva o retorno. A resposta de Rogério está menos no resultado e mais no processo: a paixão que nasceu num capotamento em 2000 nunca arrefeceu. Sobre a edição que começa agora, ele resume o espírito com que encara qualquer Sertões: “o rali só termina quando a linha de chegada é cruzada. Até lá, há muita água para passar, muita pedra, poeira e pontes pelo caminho. Vamos encarar cada etapa degrau a degrau.”

Enquanto a Vila Sertões se movimenta em Goiânia e os primeiros motores começam a ligar para o prólogo deste sábado, Rogério Almeida se prepara, mais uma vez, para atravessar o Brasil com o mapa na cabeça antes mesmo de a planilha chegar às mãos.

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