Engrenagem Pública
Caso Codevasf expõe disputa silenciosa pelo controle da execução orçamentária
Por Julia Fernandes Fraga - Em 26/02/2026 às 11:31 AM

A Companhia é uma estatal estratégica na implementação de recursos federais. Foto: Cássio Moreira/Codevasf/Agência Senado
A investigação da Polícia Federal (PF) sobre a atuação da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) em Petrolina deixou de ser apenas um episódio regional e passou a lançar luz sobre um modelo mais amplo de influência política sobre estruturas federais responsáveis pela execução de recursos públicos.
Ao identificar indícios de uma relação de subordinação informal entre o então superintendente da 3ª Regional da estatal, Aurivalter Cordeiro Pereira da Silva, e integrantes da família Coelho — um dos grupos políticos mais tradicionais de Pernambuco — a Operação Vassalos coloca sob escrutínio a possibilidade de condução política de decisões técnicas dentro da companhia.
Segundo documentos reunidos pelos investigadores, Aurivalter, que antes da nomeação havia atuado como assessor parlamentar do ex-senador Fernando Bezerra Coelho, teria mantido canais de prestação de contas e alinhamento estratégico com o núcleo político mesmo após assumir a função pública em 2016.
De caso local a sinal sistêmico
O ponto central da investigação não se limita à eventual relação pessoal, mas ao impacto institucional desse tipo de vínculo.
A PF aponta que a influência política sobre a gestão da Codevasf pode ter sido determinante para o direcionamento de emendas parlamentares e termos de execução descentralizada (TEDs) para projetos previamente definidos.
Parte dos recursos teria beneficiado empresas específicas, entre elas a Liga Engenharia, que desde 2017 acumulou mais de R$ 100 milhões em contratos de pavimentação em Petrolina.
A leitura que emerge da investigação é que estruturas técnicas de execução podem ter sido utilizadas como instrumentos de viabilização política — deslocando o centro de decisão de critérios administrativos para alinhamentos estratégicos.
Repercussão no modelo de governança
A Operação Vassalos, que apura crimes como organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitações, cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em cinco estados e no Distrito Federal por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mais do que apurar responsabilidades individuais, o avanço do caso tende a provocar reflexões em Brasília sobre o grau de permeabilidade política em estatais que operam como executoras de recursos descentralizados.
Num cenário em que o sistema de emendas parlamentares se consolida como principal instrumento de articulação federativa, o episódio reforça o debate sobre autonomia técnica, governança pública e limites entre gestão institucional e influência partidária.
A depender do desdobramento, o caso pode ultrapassar a esfera investigativa e impactar a discussão sobre o desenho operacional dessas estruturas dentro da engrenagem político-orçamentária nacional.
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