Unir para Mudar
Tasso avaliza Ciro e recoloca o mudancismo no centro da disputa
Por Fernando Benevides - Em 02/08/2026 às 11:57 AM
Duas semanas depois de presidir remotamente a convenção que homologou Ciro Gomes, Tasso Jereissati compareceu ao Marina Park e assumiu o papel de avalista histórico da candidatura. A imagem oferece origem e legitimidade à oposição — mas também permite ao governismo associá-la a um ciclo político do passado.

Capitão Wagner, Tasso Jereissati, Ciro Gomes, André Fernandes, Roberto Cláudio, Alcides Fernandes
Em 20 de julho, a candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Ceará foi homologada numa reunião fechada na Torre Empresarial Iguatemi. Onze convencionais participaram da votação. Ciro acompanhou o encontro por videoconferência. Tasso Jereissati (PSDB), que presidiu a assembleia da Federação PSDB-Cidadania, também participou remotamente.
No sábado (1º), no Marina Park Hotel, Tasso estava presente — e discursou.
Entre uma cena e outra há menos de duas semanas de calendário e quatro décadas de política cearense.
Tasso reconhece as diferenças antes de defender a unidade

Tasso Jereissati
O discurso não tentou apresentar a aliança como um bloco ideologicamente homogêneo.
Tasso reconheceu que existem diferenças de ideias e preferências entre as forças reunidas no Marina Park, mas afirmou que o grupo está unido pelo que definiu como espírito público e caráter. Apresentou Ciro como a maior esperança do Estado naquele momento, elogiou a trajetória de Capitão Wagner (União Brasil) e concentrou suas críticas na segurança pública durante a gestão de Elmano de Freitas (PT), lamentando que o Ceará tenha trocado manchetes de conquistas por manchetes de violência.
Admitir a diferença antes de proclamar a convergência não foi um deslize.
Numa aliança que reúne PSDB, União Brasil e PL, é provavelmente a única retórica disponível — e também a mais crível.
A plateia era parte do argumento
A composição do salão ajudava a sustentar a mensagem.
O ex-prefeito de Fortaleza e presidente municipal do PSDB, José Sarto, dividiu o ambiente com o deputado federal André Fernandes, presidente estadual do PL. Também acompanharam o ato Moroni Torgan, Mauro Filho e os integrantes da chapa majoritária, Roberto Cláudio, Capitão Wagner e Alcides Fernandes.
Em 2022, Ciro, Capitão Wagner e o campo bolsonarista estavam fora do bloco governista, mas disputavam a eleição por caminhos separados. Em 2026, aparecem reunidos em torno da mesma candidatura ao Palácio da Abolição.
A fotografia produzida no Marina Park foi, portanto, mais do que partidária.
Foi a tentativa de transformar uma articulação de bastidores em imagem pública de unidade.
O projeto das mudanças volta à campanha

Capitão Wagner, Tasso Jereissati, Ciro Gomes, André Fernandes, Roberto Cláudio, Alcides Fernandes
A coligação foi registrada como Unir para Mudar.
Não há confirmação pública de que o nome tenha sido escolhido como referência direta ao ciclo político iniciado por Tasso, mas a formulação permite uma leitura histórica: ela ecoa o chamado mudancismo, marca associada aos governos de Tasso e Ciro e à ruptura com as estruturas que dominavam a política estadual até os anos 1980.
A aproximação entre os dois começou naquele período, quando Tasso presidia o Centro Industrial do Ceará. Eleito governador em 1986, ainda pelo PMDB, viu Ciro tornar-se líder de seu governo na Assembleia Legislativa. Com seu apoio, Ciro chegou à Prefeitura de Fortaleza em 1988.
Tasso e Ciro, porém, não fundaram o PSDB no Ceará. A legenda já havia sido implantada no Estado por nomes como Moema São Thiago, antes da adesão do grupo governista. A entrada de Tasso, Ciro, prefeitos da Região Metropolitana e 15 deputados estaduais, na virada para 1990, mudou a escala do partido e deu à sigla a maior bancada da Assembleia Legislativa.
O detalhe ajuda a interpretar o Marina Park: Tasso não criou o PSDB cearense, mas sua entrada transformou o partido em instrumento central de poder estadual. Foi pela nova legenda que Ciro disputou e venceu a sucessão do ex-governador em 1990. É a esse projeto que retornou em 2025, novamente articulado por Tasso.
Uma segunda precisão também importa: Tasso não levou Ciro à política.
Ciro iniciou a carreira eleitoral pelo PDS, sucessor da Arena, dentro de uma tradição familiar ligada à política de Sobral. Tasso teve outro papel, decisivo para a trajetória que viria depois: tornou-se seu principal padrinho político e o incorporou ao projeto que reorganizou o poder no Ceará.
Os dois comandaram o Governo do Estado em quatro mandatos — um de Ciro e três de Tasso.
O espelho construído em 24 horas

Cid Gomes, Elmano De Freitas, Lula, Gabriella Aguiar, Evandro Leitão E Camilo Santana
Na sexta-feira, a convenção da Federação Brasil da Esperança reuniu Lula, Elmano de Freitas, Camilo Santana (PT) e Cid Gomes (PSB) no Centro de Eventos do Ceará.
No palanque governista estava o irmão do candidato da oposição.
Lula defendeu o voto casado entre as candidaturas da base. Elmano elevou o tom contra os adversários e associou o outro campo a mentiras e disputas internas.
Vinte e quatro horas depois, no Marina Park, quem avalizava Ciro era o homem que teve papel decisivo em sua ascensão à Prefeitura de Fortaleza e, depois, ao Governo do Estado.
Em dois dias, o Ceará viu o irmão de Ciro no palanque governista e seu principal padrinho político no lançamento da oposição.
É uma imagem rara, mesmo para uma política marcada por rupturas familiares, recomposições e alianças inesperadas.
O peso do aval num cenário ainda aberto
Tasso subiu ao palanque num momento eleitoral particular.
A Genial/Quaest mostra Ciro na liderança, com 43%, contra 33% de Elmano no primeiro turno. Ao mesmo tempo, 51% dos entrevistados dizem que o governador merece ser reeleito.
A oposição lidera sem que o governo tenha perdido integralmente sua legitimidade política.
Nesse cenário, o aval de Tasso oferece a Ciro uma narrativa de experiência administrativa, origem e continuidade histórica — algo que a vantagem numérica da pesquisa, sozinha, não produz.
A unidade exibida no palanque ainda convive com uma pendência jurídica. Os diretórios estaduais do União Brasil e do Progressistas contestam o apoio da Federação União Progressista a Ciro. Até decisão em sentido contrário, a composição apresentada permanece válida.
Leitura IN

Ciro Gomes no lançamento da campanha ao Governo do Ceará Fotos: Portal IN
O Marina Park não apresentou uma proposta inédita nem uma mobilização sem precedentes.
Apresentou uma narrativa.
Ao subir ao palanque, Tasso Jereissati fez mais do que declarar apoio a Ciro Gomes. Recolocou em circulação um capital político construído ao longo de quatro mandatos estaduais e ofereceu à candidatura uma genealogia que nenhuma pesquisa consegue produzir.
É justamente aí que nasce a principal disputa simbólica desta eleição.
Para a oposição, Tasso representa experiência, continuidade administrativa e a memória de um ciclo que modernizou o Ceará.
Para o governismo, a mesma imagem será apresentada como o retorno de um projeto pertencente ao passado.
A campanha começa antes mesmo da propaganda eleitoral.
Ela começa pela disputa sobre o significado da mesma fotografia.
A pesquisa
Genial/Quaest — registro CE-09277/2026. Foram realizadas 1.002 entrevistas entre 24 e 28 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais.
- Segundo turno: Ciro Gomes, 48%; Elmano de Freitas, 35%.
- 53% apontam a violência como o principal problema do Ceará.
- A propaganda eleitoral começa oficialmente em 16 de agosto.
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