TALENTOS TECH
Nova York supera Vale do Silício com 394 mil profissionais e redesenha mapa da tecnologia nos EUA
Por Redação - Em 23/08/2026 às 12:01 AM

Em Nova York, apenas 34,4% dos profissionais de tecnologia trabalham diretamente em empresas do próprio setor
O mapa dos talentos de tecnologia nos Estados Unidos está mudando. Pela primeira vez em 13 anos, a região metropolitana de Nova York ultrapassou a Bay Area de São Francisco em número de profissionais do setor, impulsionada pela contratação de especialistas por diferentes indústrias e pelo avanço acelerado da inteligência artificial.
Nova York chegou a 394,3 mil profissionais de tecnologia em 2025, contra 375,7 mil na região de São Francisco, segundo o relatório Scoring Tech Talent 2026, da CBRE, que analisou mercados dos Estados Unidos e Canadá.
A inversão das posições ocorreu por movimentos opostos. Entre 2022 e 2025, Nova York adicionou 30.640 profissionais, enquanto a Bay Area perdeu aproximadamente 23,9 mil. Nesse período, a força de trabalho tecnológica nova-iorquina cresceu 8,4%, enquanto a de São Francisco recuou cerca de 6%.
O resultado, entretanto, não significa que o Vale do Silício tenha perdido sua posição como principal ecossistema tecnológico norte-americano. No ranking geral da CBRE, que considera 13 indicadores, incluindo concentração de profissionais, formação de talentos e investimentos em pesquisa e desenvolvimento, São Francisco continua em primeiro lugar. Nova York aparece na quarta posição.
Tecnologia avança para além das empresas tech
Um dos fatores por trás da ascensão nova-iorquina é justamente a diversidade de sua economia. A demanda por especialistas deixou de estar concentrada em empresas tradicionalmente associadas ao setor e passou a crescer em bancos, gestoras, companhias de serviços e outras organizações que aceleram investimentos em digitalização e inteligência artificial.
Em Nova York, apenas 34,4% dos profissionais de tecnologia trabalham diretamente em empresas do próprio setor. A proporção ajuda a mostrar como essas competências estão distribuídas por diferentes atividades econômicas.
Wall Street ocupa papel importante nessa transformação. Bancos e instituições financeiras ampliaram a contratação de especialistas em tecnologia e IA, contribuindo para aumentar o contingente de profissionais qualificados na cidade.
A diferença em relação à Bay Area também aparece na concentração. Profissionais de tecnologia correspondem a aproximadamente 4,2% do emprego total de Nova York. Em São Francisco, a participação chega a 10,7%. Ou seja, Nova York lidera em números absolutos, enquanto o Vale do Silício mantém uma densidade tecnológica muito superior.
IA já reúne 751 mil profissionais
A inteligência artificial é outro componente central dessa reorganização. O número de trabalhadores com competências relacionadas à tecnologia cresceu 45% em apenas um ano nos Estados Unidos e Canadá, alcançando 751 mil profissionais em meados de 2026.
São Francisco e Nova York adicionaram, individualmente, mais de 20 mil especialistas em IA no período.
A Bay Area, porém, continua à frente nesse recorte. São Francisco concentra cerca de 98,7 mil profissionais especializados em inteligência artificial, enquanto Nova York reúne aproximadamente 67,9 mil. Seattle aparece depois, com 41,6 mil, seguida por Washington, D.C., com 33,5 mil.
Somadas, São Francisco, Nova York, Seattle e Washington concentram 37% dos profissionais especializados em IA dos Estados Unidos.
Outro indicador mostra o tamanho da transformação: funções relacionadas à inteligência artificial já representam quase um terço das vagas de tecnologia disponíveis nos EUA.
Toronto entra na disputa
A redistribuição dos talentos não ocorre apenas entre Nova York e Califórnia. Toronto aparece como terceiro maior mercado em número de profissionais, com aproximadamente 358 mil trabalhadores de tecnologia.
A cidade canadense adicionou cerca de 75 mil profissionais entre 2022 e 2025, maior crescimento absoluto entre os mercados analisados pela CBRE.
Outros polos também avançaram rapidamente. Dallas-Fort Worth ganhou 37,2 mil trabalhadores e Nova York, 30,6 mil. Em termos percentuais, Calgary cresceu 56%, Waterloo avançou 37%, Nashville teve expansão de 34% e Toronto aumentou sua força de trabalho tecnológica em 27%.
O movimento sugere uma descentralização gradual das oportunidades. O Vale do Silício continua sendo referência para startups, capital de risco e inovação, mas já não concentra sozinho a expansão do emprego tecnológico.
IA também movimenta mercado imobiliário
O crescimento das empresas de inteligência artificial produz reflexos além do mercado de trabalho. A demanda por escritórios está aumentando justamente em algumas das regiões com maior concentração desses profissionais.
Em São Francisco, empresas de IA responderam por 58% das locações de escritórios no primeiro semestre de 2026. Desde 2023, essas companhias representam cerca de 30% da atividade de locação na região, acumulando aproximadamente 920 mil metros quadrados.
A dinâmica contrasta com o movimento observado durante a pandemia, quando o trabalho remoto reduziu a ocupação de escritórios e estimulou a saída de profissionais da Bay Area. Empresas ligadas à nova geração da inteligência artificial têm adotado uma cultura mais presencial, aumentando novamente a demanda por espaços corporativos.
Manhattan, Boston e Seattle também estão entre os mercados beneficiados por essa tendência.
Vale do Silício mantém vantagem estratégica
Os números revelam, portanto, uma disputa mais complexa do que uma simples troca de liderança.
Nova York tornou-se o maior mercado norte-americano de talentos tecnológicos em quantidade de profissionais, enquanto São Francisco preserva a primeira posição no ranking geral da CBRE e continua apresentando maior concentração de trabalhadores especializados.
Na inteligência artificial, a diferença permanece significativa: 26% dos profissionais de tecnologia da Bay Area possuem competências especializadas em IA, ante 17% em Nova York.
A transformação mais relevante está na expansão da tecnologia para setores que antes eram apenas consumidores dessas soluções. Bancos, indústrias, varejistas e empresas de serviços estão construindo equipes próprias, diminuindo a concentração do emprego nas grandes companhias de tecnologia.
Nesse cenário, Nova York ganha uma vantagem particular: combina um dos maiores mercados financeiros do mundo, grande concentração corporativa e uma base crescente de profissionais de inteligência artificial.
Mais do que substituir o Vale do Silício, a cidade mostra que a próxima etapa da corrida tecnológica pode ser menos concentrada geograficamente — e cada vez mais integrada às indústrias tradicionais.
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